terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Grupo dos 3 (40ª sessão) : Quinta dos Carvalhais em prova

Depois de um longo intervalo de 4 meses (!), este núcleo duríssimo dos 3 (Juca, João e eu) voltou a reunir-se em mais um almoço para provar vinhos às cegas, vindos da minha garrafeira (2 brancos e 1 tinto, todos da Qtª de Carvalhais e, ainda, 1 ice wine austríaco. Este regresso não podia ter sido melhor : o repasto decorreu no restaurante Avenue, com um menú criado pela  Marlene Vieira, uma chefe em ascensão que eu já referi neste blogue por diversas ocasiões. Acresceu um serviço de vinhos de luxo, a cargo do Giscard Müller e Manuel Moreira, escanção já consagrado e colaborador da revista Wine, já nossos conhecidos do GSpot, em Sintra.
Ainda antes da prova, vieram para a mesa o azeite transmontano Distintus, dois patés e uns deliciosos peixinhos da horta crocantes. Começada a degustação, desfilaram:
.Encruzado 2012 - estagiou 6 meses em barricas de carvalho francês; nariz discreto, presença de citrinos e maçãs, fresco e mineral, boa acidez, equilibrado, elegante e harmonioso. Nota 16,5+ (noutras situações 17/17/16/16,5).
Ligou muito bem com cavala marinada e puré de cenoura.
.Branco Especial - resultante de um lote com as colheitas 2004, 2005 e 2006, estagiou um longo período em barricas usadas de carvalho francês (foi engarrafado em Dezembro de 2013); aroma exuberante, presença de fruta madura, notas de frutos secos, alguma gordura, complexidade, madeira muito bem integrada, volume assinalável e final longo. A harmonia que lhe faltava, quando o provei há 3 meses aí está em pleno. Grande branco! Nota 18 (noutra 17,5).
Gastronómico, maridou muito bem com choquinhos em sua tinta e arroz dos mesmos.
.Reserva 2007 - estagiou 1 ano em barricas novas de carvalho francês; nariz afirmativo, notas florais, acidez q.b., elegante, taninos domados, algum volume e final de boca. Esperava maior complexidade. Nota 17 (noutras 17,5/18,5).
Fez companhia a leitão assado e puré de aipo, mas sem brilhar.
.Kracher Grand Cuvée Trockenbeeren Auslese 2004 (10,5 % vol.!) - nariz exuberante, boca complexa, presença de citrinos, frutos secos, acidez equlibrada, notas meladas, volume e final acentuados. Nota 18 (95 pontos no Robert Parker).
Boa harmonia com uma sobremesa de papo d'anjo e gelado caseiro.
Grande "rentré", neste belíssimo espaço, com  gastronomia e serviço de vinhos 5 *!
.

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Curtas (XXXIX) : Vinhos e Gastronomia na TV

1.Verdade do Vinho
Com o apoio da ViniPortugal, vai passar na RTP2, pelas 22h50, a partir de 30/9, uma série de 13 episódios dedicados ao vinho. O 1º é dedicado ao Douro, seguindo-se as restantes regiões vitivinícolas, com excepção do Algarve, esquecida dos organizadores do programa.
2.Guerra dos Pratos
Começa hoje pelas 21h45, no canal Fox Life, com o apoio das Pousadas de Portugal, uma série dedicada à cozinha tradicional portuguesa. Terá a supervisão do chefe Alexandre Silva, por coincidência objecto da minha crónica de hoje.

Os comeres no Mercado da Ribeira : Alexandre Silva

Depois de ter falado das bancas dos chefes Marlene Vieira, Vitor Claro e Henrique Sá Pessoa, hoje é a vez do Alexandre Silva, actualmente o chefe da Bica do Sapato. O respectivo cardápio refere 5 referências para picar, 5 entradas (5 a 6 €), 5 pratos principais (8 a 10 €) e 5 sobremesas (4 a 4,50 €).
Nas entradas pode optar-se por sardinha marinada, farinheira de porco alentejano, gaspacho de tomate, ceviche de bacalhau fresco e cardume de joaquinzinhos, enquanto que nos pratos a oferta passa por hamburguer de boi, peixe do dia, barriga de porco confitada, bochecha de vitela e risoto negro com vieiras salteadas.
Em 2 visitas, experimentei a sardinha marinada, a barriga de porco confitada com puré de ervilhas (duas interessantes apostas) e o risoto negro com vieiras (fabuloso!).
Quanto a vinhos, a oferta a copo tem algumas sugestões interessantes e preços simpáticos. A garrafa é mostrada, mas o vinho é servido, sem ser dado a provar. Numa das visitas não resisti ao rosé Barranco Longo 2013 (3,50 €) - nariz exuberante, fruta, acidez, alguma gordura e volume; muito gastronómico e polivalente. É o meu rosé. Nota 17+. Na outra servi-me na banca do Esporão o branco Reserva 2013 (4 €) - fresco, mineral, potência de boca em simultâneo, muito equilibrado e gastronómico. É dos brancos alentejanos mais interessantes que conheço. Nota 17,5+.
O Mercado da Ribeira já não tem as enchentes e a confusão dos primeiros dias, geradas pela novidade. Está-se muito mais à vontade. Continuarei a ir, até porque me falta frequentar a banca do chefe Miguel Castro e Silva.
O serviço de limpeza continua eficiente, mas agora também fazem um apelo, com algum sentido de humor, aos clientes daquele espaço, com a introdução de carros para recepção de tabuleiros. Em letras grandes, num deles lia-se "PSTTT!!!" e no outro "OH LINDINHA", seguido de "Ponha aqui o seu tabuleiro. Obrigado."

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Evento "Wine Bloggers" na Adega José de Sousa

1.Preâmbulo
A convite da José Maria da Fonseca (JMF), mais uma vez, 12 bloguistas visitaram a centenária Adega José de Sousa, adquirida pela família Soares Franco em 1986. A JMF tem estado muito atenta ao mundo da blogosfera e organizado uma série de eventos com a nossa participação, não é demais lembrá-lo. Deste aspecto já me tinha referido em crónica anterior "Evento Wine Bloggers na José Maria da Fonseca - versão 2013", publicada em 19/11/2013. Tiro-lhes o meu chapéu!
Fomos recebidos pelo Domingos Soares Franco e pela Sofia, que nos acompanhou desde Lisboa.
2. A Adega
A Adega José de Sousa foi fundada por José de Sousa Faria e Mello, tio avô de José de Sousa Rosado Fernandes, ainda no século XIX. É detentora de um apreciável património histórico, onde se inclui um menir (!), cerca de 100 talhas e uma quantidade de peças não identificadas. Ainda há ali muito trabalho de arqueologia a fazer.
É claro que também possui um núcleo moderno com mais de 40 tanques de inox, para vinificação dos brancos e tintos que produz, mas o que mais impressiona é o núcleo histórico. De destacar uma ampliação do rótulo do 1º vinho que se conhece:
José de Sousa Faria e Mello
Vinho Tinto
Reguengos
1878
3.A prova
Orientada pelo Domingos, provámos  os vinhos de 2011 (José de Sousa, José de Sousa Mayor e o J), muito bons no seu respectivo patamar, com os quais eu já travara conhecimento noutras provas. Antes dos 2011, avançaram os Montado 2013, branco e tinto e, ainda, umas amostras de Trincadeira 2012, vinificada separadamente em inox, lagar e potes (talhas), que valeu pela curiosidade.
A grande surpresa, para mim, foi o Montado branco - muita fruta fresca, belíssima acidez, equilibrado, elegante e harmonioso. Teria maridado bem com o gaspacho. Com um PVP abaixo dos 3 € é um achado!
4.O almoço
Em mesa posta entre as talhas e com o menir à vista, decorreu o almoço regado pelos vinhos de 2011, provados anteriormente. O colheita a conflituar com o gaspacho (desta vez a sopa de ervilhas à Domingos Soares Franco não apareceu, pois está confinada a Azeitão), mas o Mayor e o J em grande harmonização com carne de porco à alentejana com migas clássicas e de tomate (melhores as primeiras). Com a mousse de chocolate e o abacaxi avançou o belíssimo Moscatel Alambre 20 Anos (engarrafado em 2013). Foi a cereja em cima do bolo!
Mas a grande surpresa veio já quase no final do repasto: foram abertas e provadas 2 garrafas de 1940, em cujos rótulos se podia ler:
o vinho da Casa Agricola José Rosado Fernandes
Reguengos de Monsaraz
Alentejo
telefone 5224
É puro surrealismo esta referência, em pleno rótulo, ao telefone da empresa. Mas nenhuma indicação quanto ao teor alcoólico!
Estas 2 garrafas, com a proveta idade de 74 anos, mostraram-se muito diferentes, mas de perfeita saúde. Uma delas, para mim a mais interessante, fez-me lembrar, tanto no nariz como na boca, um tawny velho. Não se aguentando com a carne de porco, ligou perfeitamente com a mousse. O apaixonante mundo do vinho não para de me surpreeder!
5.Os sortudos
Para memória futura, participaram neste evento:
.Adegga (André Cid, André Ribeirinho e Daniel Matos)
.Comer, Beber, Lazer (Carlos Janeiro)
.Copo de 3 (João Carvalho)
.Enófilo Militante (eu próprio)
.Joli Wine & Food (Jorge Nunes)
.Magna Casta (Ricardo Oliveira)
.O Vinho é Efémero (Elias Macovela)
.O Vinho em Folha (Paulo Mendes)
.Os Vinhos (Pedro Barata)
.Reserva Recomendada (Rui Pereira)
6.A fechar
Cada um de nós levou para casa 2 garrafas de José de Sousa 2011 (o colheita e o Mayor), oferta simpática dos anfitriões. Obrigado Domingos! Obrigado Sofia!

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Curtas (XXXVIII)

1.Comer e beber em Centros Comerciais
É quase sempre um suplício, para mim, comer e beber em Centros Comerciais (C.C.), à base de tabuleiro na mão, paga na caixa e desaparece para a vala comum. Normalmente acompanho o "fast food" com cerveja, pois serviço de vinhos é coisa que não existe.
Esta afirmação era verdadeira até há pouco tempo. Recentemente, abriu no C.C.Allegro Alfragide um espaço de restauração que veio contrariar as ideias feitas, quanto a comer e beber nos C.C.. Este novo espaço dá pelo nome de Serra da Estrela - Allegro, mas não tem qualquer ligação com o Serra da Estrela do C.C. Amoreiras, segundo me disseram.
É um restaurante, perfeitamente delimitado, com um simpático atendimento à chegada. Pode beber-se vinho à garrafa ou a copo (só o da casa), tendo eu constatado que o serviço cumpre as regras básicas e está muitos furos acima da maioria dos restaurantes em Lisboa. A garrafa vem à mesa e o vinho é dado a provar, antes de ir para o copo.
Bebi, a copo (aceitável, mas podia ser melhor), o branco Encostas da Estrela 2012, um Dão da Adega Cooperativa de Tazém. Frutado, fresco e descomplicado, sem outras pretensões que não sejam fazer boa companhia à comida. Por 1,75 € (!), não se pode exigir mais.
A gastronomia ainda não encontrou o seu caminho (já comi bons pratos e outros para esquecer) e quanto aos guardanapos, o papel é tão rasca que se rasga logo que se limpa a boca. Ó senhores do Serra da Estrela, se não querem pôr guardanapos de pano (mas aí marcavam bem a diferença), ao menos invistam num papel mais resistente!
2.Restaurantes revisitados
.Descobre (R.Bartolomeu Dias) - é sempre um prazer voltar a este espaço (restaurante e mercearia): ementa original, muitas referências para picar e a possibilidade de se ir buscar o vinho à sala do lado (preços de garrafeira) e pagar mais 20 % da taxa de rolha. Bom serviço de vinhos.
.Este Oeste (CCB) - já zurzi fortemente o serviço deste simpático espaço, mas na última visita as coisas correram melhor, excepto a espera que foi demorada; a comida seja italiana ou japonesa tem tido sempre qualidade e a esplanada, com vista para o Tejo, é uma mais valia.
.Crôa (Praia Grande) - é um restaurante de praia, onde o peixe tem a melhor relação preço/qualidade que eu conheço; também tem comida de tacho, que não conheço mas quero experimentar no inverno; vistas para o mar, são também uma mais valia.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

O Mercado de Sabores do Continente


No último Sábado estive, a convite da organização, no Meo Arena, onde decorreu o Mercado de Sabores, organizado pelo Continente.
Auto intitulado de o 1º grande evento de "street food" em Portugal, contou com a participação de 5 mediáticos chefes (Hélio Loureiro, Sá Pessoa, Kiko Martins, Justa Nobre e Luis Baena) em "showcookings" abertos.
Para além disto, estavam presentes mais de 60 bancas com produtos da terra, enchidos, queijos, doçaria, etc, alguns dos quais em prova. À conta destas degustações, muito boa gente ficou almoçada.
Quanto a vinhos, podiam ser provados nas bancas de algumas dezenas de produtores que trabalham com o Continente, os quais se limitaram a trazer as suas gamas de entrada e um ou outro vinho de gama média. Fora do contexto, estava o belíssimo Morgado de Stª Catherina 2012 que provei e voltei a provar, apagando a má impressão deixada pela colheita de 2010. Custa menos de 10 € e é, para mim, a melhor relação preço/qualidade em brancos portugueses. Uma falha: não detectei qualquer ponto de lavagem de copos. À atenção da organização.
Também estavam em prova os vinhos Contemporal, marca exclusiva do Continente, dos quais, por curiosidade, degustei um Madeira Doce 3 Anos. Parecia que tinha posto na boca borracha queimada! Como é possível vender-se um Madeira com este perfil? Afugenta qualquer principiante!
A fechar, almocei uma muito boa e enorme sandes de paio do cachaço (4 €) numa das poucas bancas do Pátio dos Petiscos. Acompanhei com uma imperial, pois naquele espaço não havia ninguém a vender vinho a copo, o que não faz sentido.  

domingo, 14 de Setembro de 2014

Perplexidades (X)

A crónica de hoje é mais uma achega para a história das Coisas do Arco do Vinho, respeitante ao período Setembro 1996/Março 2010, quando a gestão (do Juca e minha) era da nossa responsabilidade. A 1ª foi publicada em 8/5/2011 e a última em 15/5/2013, onde, quem tiver curiosidade, pode aceder às outras 8 crónicas (há um "link" para cada uma delas). São histórias insólitas, todas presenciadas por mim, envolvendo figuras públicas ou com responsabilidades no mundo do vinho.
A perplexidade que hoje conto diz respeito a uma figura que teve responsabildades institucionais no mundo do vinho, mas que não as soube separar dos seus interesses pessoais. A história conta-se em 5 actos:
1.Antecedentes
A pedido dessa entidade as CAV apoiaram, durante algum tempo, um determinado espaço, fornecendo uma série de acessórios para o serviço do vinho, copos, decantadores, etc.
As relações institucionais e pessoais eram as melhores.
2.Onde entram os interesses pessoais
Num dos contactos com as CAV, a personagem em causa, levou algumas amostras de vinhos da família, com a esperança que passassem a fazer parte do portefólio das CAV.
3.O nosso painel de prova
À semelhança do que se passava com todas as amostras enviadas para a Loja, estes vinhos foram provados às cegas pelo nosso painel de prova, por onde passaram, entre outros, o Rui Falcão, Pedro Gomes, João Quintela e Nuno Garcia. Azar dos azares, os vinhos não ficaram nos 3 primeiros lugares, logo foram rejeitados.
4.A vingança
Quando a personagem em causa lançou uma revista institucional, uma ou mais das suas páginas era dedicada a garrafeiras ou lojas da especialidade. A nossa Loja, na altura a mais badalada de Lisboa, foi completamente ignorada. Só podia ter sido por vingança.
5.A nossa reacção
A nossa reacção foi imediata, tendo inquirido a personagem em causa se teria esquecido o nosso apoio, sem o qual o seu espaço não teria tido o mesmo significado.
Encostada à parede, a personagem em causa não teve outro remédio senão enviar a Lisboa um jornalista para nos entrevistar, com vista à publicação na revista respectiva, o que veio a acontecer.
6.Moral da história
Os interesses pessoais não se devem sobrepor aos institucionais!