quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Rabod' Pêxe : uma aposta nos produtos açorianos

Este original espaço, situado na Av. Duque d' Avila, 42 (entre as avenidas da República e 5 de Outubro) não é um restaurante de comida açoriana, como o nome pode fazer crer, mas antes uma aposta no peixe e na carne vindas dos Açores.
É um espaço moderno onde a maior parte das mesas, algumas demasiado em cima de outras, não permitindo qualquer privacidade, está concentrada numa magnífica esplanada interior. Logo à entrada encontram-se umas quantas bancas, onde se pode escolher o peixe ou marisco. A ementa tem ainda, para além de pratos de peixe, carne e sushi, uma outra categoria que dá pelo curioso nome de "surf and turf", uma mistura de peixe e carne. Resta informar que o responsável pela cozinha é o chefe Filipe Rodrigues, que esteve na base do projecto Sea Me.
Visitei este espaço já por 2 vezes, tendo escolhido pota com milho frito mais novilho com lingueirão (na 1ª visita) e cavala fumada mais tártaro de novilho (numa 2ª visita), tudo saborosíssimo e bem apresentado. Serviço, em geral, desembaraçado, super simpático, mas por vezes demasiado familiar.
Quanto a vinhos, inventariei 7 espumantes, 3 champanhes, 37 brancos, 6 rosés e 40 tintos, oferta mais do que suficiente. A lista não contempla vinhos fortificados, mas não cheguei a perguntar se os tinham (alguns restaurantes optam por os colocar na carta do bar). Fiquei, portanto, na dúvida.
O Rabod' Pêxe possui uma dependência climatizada para tintos, cuja temperatura (18º) é excessiva. Para apoio imediato, dispõem de armários térmicos "La Sommelière", com 2 temperaturas (5º e 12º), o que não faz muito sentido.
A copo só consta o vinho da casa, mas facilitam ao cliente abrir uma ou outra garrafa mais do seu gosto. Em qualquer das 2 visitas, optei pelo Adega Mãe Chardonnay 2013 (4,50 €) - presença de citrinos, acidez equlibrada, notas fumadas intensas, alguma gordura e volume assinalável. Muito bem construido e gastronómico, ligou muito bem com os pratos escolhidos. Nota 17,5.
A garrafa veio à mesa, dado a provar num bom copo Spiegelau e servida uma quantidade correcta (+- 15 cl), embora a olho.
Tenciono voltar e recomendo este original espaço, garantindo a qualidade da matéria prima, quase toda ela açoriana.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Almoço com vinhos fortificados (23ª sessão) : brancos de eleição, 1 tinto em grande forma, 1 Madeira de luxo e 1 Porto de 100 pontos

O núcleo duro dos Vinhos da Madeira e outros fortificados voltou a reunir-se, mas desta vez na Enoteca de Belém. Este almoço foi a meu convite e, na sua quase totalidade, com os vinhos da minha garrafeira (3 brancos 2012, 4 tintos 2008 e 2 Madeiras). Este lote foi reforçado com a inclusão de 2 Porto Vintage trazidos pelo nosso amigo Adelino, a quem estou muito grato.
A bebida de boas vindas foi o espumante Qtª das Bageiras Rosé 2013, uma simpática oferta da casa que cumpriu bem a sua função. Na sequência do repasto, desfilaram:
.Soalheiro Alvarinho Reserva - muito equilibrado e elegante, notas florais, alguma gordura, acidez no ponto e algum volume. Nota 17,5+ (noutras situações 17,5/18).
.Secretum - é um Douro 100 % Arinto; muito fresco, acidez q.b., notas fumadas, alguma gordura, volume e final consideráveis. Pouco conhecido em Portugal, é possuidor de um invejável palmarés (17 pontos atribuídos pela Jancis Robinson, 90 na Wine Enthusiast e 90 pelo Mark Squires, o braço direito do Parker). Nota 17,5+ (noutras 17,5/18).
.Pai Abel - acidez assinalável, fruta presente, alguma gordura, simultaneamente elegante e volumoso, complexidade q.b. Nota 18 (noutras 18/18).
Estes 3 brancos acompanharam uma entrada de pampo em escabeche, agradável mas sem impressionar (o melhor do repasto estava, ainda, para vir).
.Borges Sercial 1979 - frutos secos, vinagrinho no ponto, notas de iodo e brandy, alguma gordura, elegância, volume notável e final impressionante. Foi o melhor dos vinhos desta jornada. Impressionante! Nota 19 (noutras 18,5/18,5/19/19).
Fez a limpeza do palato e foi acompanhado por um saborosíssimo puré de castanhas com cogumelos e nozes.
.Calda Bordaleza - ainda com fruta, elegante e especiado, belíssima acidez, todo ele muito equilibrado, bom volume e final de boca. Para mim, o melhor Calda Bordaleza desde sempre. Nota 18 (noutra 18+).
.Qtª das Bageiras Garrafeira - austero, demasiado rústico para o meu gosto, taninos algo agressivos e demasiado adstringente. Foi a decepção da jornada. Nota 16,5 (nunca o tinha provado anteriormente).
Acompanharam um robusto lombo de bacalhau.
.Antónia Adelaide Ferreira - arma exuberante, ainda com muita fruta e juventude, notas florais, bela acidez, especiado, volume pronunciado e muito persistente. Em forma mais 5/6 anos. Nota 18,5+ (noutras 18,5/17,5+/18/18,5/18,5/18).
.Pintas - nariz contido, notas florais, fino e elegante, acidez no ponto, volume médio e alguma persistência. Esta colheita está uns furos abaixo do que seria de esperar. A beber nos próximos 2/3 anos. Nota 17,5+ (noutra 17).
Estes 2 tintos maridaram muito bem com uma excelente empada de pato.
.Taylor's 1994 - ainda com fruta e juventude, taninos firmes, algum volume e complexidade, final de boca muito longo. É um dos poucos que mereceu 100 pontos na Wine Spectator. Nota 18,5.
.Burmester 1970 - muito redondo e adocicado, alguma acidez e persisteência. Nota 17,5 (noutra 16,5).
Foram acompanhados por queijos (S.Jorge e Manchego).
.JBF Bual 1900 - cheio de saúde, frutos secos, vinagrinho, notas de iodo e brandy, algum volume e final interminável. A beber com todo o respeito. Nota 18,5+ (noutra 18,5).
Fizeram-lhe companhia bolo de mel da Madeira e um belissimo bolo de noz feito na Enoteca.
Foi mais uma grande jornada de convívio, comeres e beberes, também graças à equipa da casa, com o Ricardo nos tachos e o Nelson na sala. Serviço de vinhos 5 estrelas com copos Riedel e temperaturas rigorosas.
A propósito, a Enoteca de Belém foi destinguida o "Melhor Wine Bar do Ano" pelo Aníbal Coutinho e o Nelson foi um dos nomeados para o prémio do melhor escanção, atribuído pela revista Wine. Parabens à equipa!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Comemorar os 50 anos (versão 2016)

À semelhança dos anos anteriores fiz, no decorrer de Janeiro, uma pesquisa pelas garrafeiras da baixa, em demanda de vinhos de 1966 com que se possa comemorar o 50º aniversário de qualquer coisa, seja de nascimento, casamento, divórcio, o ano em que o Belenenses (o meu clube) foi campeão nacional ou outro pretexto. Aqui vão os resultados da minha pesquisa:
1.Garrafeira Nacional
.Barros Colheita - 124 €
.Dalva Colheita - 159 €
.Kopke Colheita - 174 €
.Krohn Colheita - 250 €
.Constantino Vintage - 250 €
.Blandy Cerceal - 215 €
.D' Oliveiras Verdelho - 149 €
2.Casa Macário
.Barros Colheita - 220 €
.Dalva Colheita - 195 €
.Kopke Colheita - 215 €
.Krohn Colheita - 340 €
.Qtª Noval Colheita - 270 €
.Croft Vintage - 330 €
3.Manuel Tavares
.Barros Colheita - 200 €
.Krohn Colheita - 218 €
4.Napoleão
.Messias Colheita - 220 €
.D' Oliveiras Verdelho - 177 €
5.Mercado Praça da Figueira
.Kopke Colheita - 174 €
6.Rei do Bacalhau
.Barros Colheita - 110 €
7.Ruao Wines
.Barros Colheita 105 €
Comentários:
.A Garrafeira Nacional e a Casa Macário continuam a ser as grandes referências para compras de vinhos mais antigos
.Há grandes discrepâncias nos preços praticados, chegando a haver uma diferença de mais de 100 €, num caso ou outro
.A garrafeira Ruao deve ter fechado (o preço é da garrafa que está na montra)
.Quanto ao Solar do Vinho do Porto, que deveria ser uma montra de tudo o que há no mundo do Vinho do Porto, mais uma vez, nada tinha do ano em causa.
Comemoremos, então, a qualquer coisa, pois a oferta é muita!
Para o ano, cá estaremos com a colheita de 1967.
Nota final - não fui às garrafeiras mais recentes ou mais afastadas do centro, daí a sua omissão.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

José António Salvador (JAS) : o mundo do vinho ficou mais pobre

O José António Salvador deixou-nos! Conheci o JAS durante o chamado PREC e ficámos amigos para sempre. Ele não tinha telhados de vidro, embora fosse, por vezes, algo fundamentalista nas suas sinceras opiniões, criando-lhe alguns inimigos.
 Além de biógrafo do Zeca Afonso, foi crítico e divulgador de vinhos, tendo publicado 13 Roteiros de Vinhos Portugueses de 1991 a 2003, 2 ou 3 Roteiros Gastronómicos e outras obras de maior fôlego. Em 20/4/2010 publiquei a crónica "Críticos e divulgadores de vinhos", onde se podem encontrar referências mais pormenorizadas à sua obra.
Começou no semanário "O Jornal", coordenando a separata "Vinhos & Gastronomia", precisamente onde o João Paulo Martins se iniciava neste mundo do vinho, tendo na introdução ao guia "Vinhos de Portugal 2014" referido "(...) José A. Salvador com quem demos os primeiros passos nesta aventura dos vinhos, de quem sempre recebi o incentivo para ir em frente (...)". Continuou na SIC e, nestes últimos anos, fazia crítica de vinhos na Visão.
Foi, ainda, o primeiro a enaltecer a excelência dos vinhos do Buçaco e, também, os da Madeira, produzidos pela empresa familiar Artur Barros e Sousa.
Em relação às Coisas do Arco do Vinho, o JAS foi uma das personalidades do mundo do vinho que nós (o Juca e eu) contactámos quando da preparação do nosso projecto. Quando abrimos a loja, o nosso portefólio de vinhos não contemplava qualquer vinho estrangeiro, o que viemos a corrigir na sequência de algumas críticas fundamentadas sobre essa lacuna, nomeadamente formuladas pelo JAS.
Termino com o título do 1º capítulo do 1º Roteiro do JAS: "O vinho é um copo de amizade". Bebamos, então, à sua memória!

domingo, 31 de janeiro de 2016

Vinhos em família (LXVIII) : finalmente os tintos de 2011...

A fechar o mês, mais uma rodada de vinhos provados tranquilamente em família e com os rótulos à vista. E todos a portarem-se muito bem: 1 Alvarinho, 1 Colheita Tardia, 1 Madeira e 2 tintos da colheita excepcional que foi o ano de 2011, nomeadamente no Douro. Ei-los:
.Soalheiro Alvarinho 1ª Vinhas 2013 - austero, presença de citrinos, algum leve tropical, acidez equilibrada, elegante e sofisticado, algum volume e persistência. Nota 17,5+ (noutras situações 17,5+/17,5+).
Acompanhou bem uns belos camarões de Moçambique.
.Nunes Barata Grande Reserva 2011 (produzido pela família Nunes Barata, no Cabeção) - com base nas castas Alicante Bouschet, Syrah e Cabernet Sauvignon, estagiou 1 ano em barricas de carvalho francês; nariz contido, presença de frutos pretos, notas florais, acidez no ponto, algo especiado, potência de boca, mas elegante e grande final de boca. Ainda está crescer, dará o seu melhor daqui por 4/5 anos. Praticamente esquecido pela crítica especializada, foi a minha grande surpresa quando andei a provar vinhos alentejanos no CCB, no último verão. Nota 18.
.Qtª Crasto Vinhas Velhas 2011 - estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês; nariz exuberante, ainda com muita fruta vermelha, especiado, notas de tabaco e algum chocolate, acidez no ponto, taninos suaves, volume, elegância e bom final de boca. Tem a melhor relação preço/qualidade em vinhos de gama média/alta. Nota 18,5 (noutra 17,5+).
Estes 2 tintos foram provados em paralelo, a acompanhar umas saborosíssimas alheiras de Mirandela.
.Grandjó Late Harvest 2008 - com base na casta Sémillon; presença de citrinos e mel, acidez não muito acentuada, alguma gordura e volume, final de boca médio. Nota 17,5 (noutras 16,5+/17,5+17,5+/18).
Foi provado com uma sobremesa.
.Borges Malvasia 30 Anos - nariz exuberante, complexidade com predominância de frutos secos, vinagrinho, notas de caril e iodo, alguma gordura e volume, final muito longo. Nota 18 (noutras 18/18).
Provado no final da refeição com frutos secos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Less : o Miguel Castro e Silva (MCS) merecia mais

Em finais de 2015, abriu no palacete "Embaixada" (Pç Príncipe Real,26) o Less by Miguel Castro e Silva. Quando da sua abertura, titulava a E (Revista do Expresso): "Casamento perfeito", afirmando "A Gin Lovers e o chefe MCS estão juntos para trazer ao Príncipe Real alguns dos melhores gins do mercado e pratos do reconhecido chefe (...)". Só que o dito casamento não é nada perfeito, pois enquanto o Gin Lovers está omnipresente, o MCS só tem direito ao seu nome em letras minúsculas e de reduzida visibilidade. Acaba por ser um parceiro menor, ele que merecia mais.
Mesas despojadas (é moda?), embora com guardanapos de pano e espaço simpático e excessivamente informal. Tão informal que no dia em que lá almocei até estava, numa outra mesa, uma jóvem mulher e o respectivo cão (!?).
Influência do novo deputado do PAN (pessoas-animais-natureza)?
A ementa é algo confusa, pois entradas e pratos estão misturados e dão origem a algumas gafes. Comecei com a entrada (a pensar que era um prato) vieiras com creme de milho e pimenta rosa e terminei com a sobremesa sopa de frutos vermelhos, pêra e gelado de natas. Estava tudo com a qualidade esperada a que me habituou o MCS.
Quanto a vinhos a copo, inventariei 1 espumante, 2 brancos e 2 tintos (estavam à temperatura ambiente, o que é de lamentar), uma boa oferta num espaço que aposta preferencialmente nos gins. Optei por um copo do branco MCS Rui Reguinga 2014 - fruta cozida, alguma acidez, volume médio; apenas um vinho correcto que acompanhou bem a refeição. Nota 15,5.
A garrafa veio à mesa, depois do empregado ter afirmado que já não havia (!), e dado aprovar num bom copo. A quantidade era mínima, mas foi prontamente corrigida quando do meu reparo.
Concluindo, boa gastronomia, serviço de vinhos com falhas e ambiente demasiado informal.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Prémios do Mesa Marcada : mais do mesmo...

Fui, na qualidade de gastrónomo, um dos 103 votantes que elegeram os 10 melhores chefes e os 10 melhores restaurantes, cujo painel incluiu chefes, donos de restaurantes, críticos e gastrónomos. Esta última edição, mais uma vez organizada e animada pelo Duarte Calvão e pelo Miguel Pires, decorreu no restaurante Honorato Chiado e teve alguns apoios de peso, como é o caso da Symington com os vinhos e a Delidelux com a maior parte dos petiscos servidos. Pareceu-me, esta edição, uns furos acima das anteriores e dou os meus parabéns aos organizadores.
Tal como escrevi na crónica de há 1 ano "Prémios do Mesa Marcada : certezas e dúvidas...", custa-me aceitar que 72 dos 103 jurados (70 % do total!) tenham ido ao Belcanto e cerca de metade aos badalados e estrelados restaurantes algarvios. Sugeri e reitero a sugestão de ser criada uma outra categoria para os espaços de restauração, com um preço médio de 30/40 € (sem bebidas) e para a qual não seriam elegíveis os estrelados. Pensem nisso, amigos do Mesa Marcada.
A minha votação (entre parêntesis, o lugar em que ficaram na classificação geral), sendo fácil de concluir que alguns só tiveram o meu voto:
a. TOP 10 Chefes
1.Vitor Areias - Estória (40º)
2.Walter Blazevic - Lisboète (61º)
3.Marlene Vieira - Mercado da Ribeira (37º)
4.Artur Santos e João Silva - Casa da Dízima (72º)
5.Miguel Castro e Silva - deCastro Flores e Mercado da Ribeira (13º)
6.António Batista - Qtª Madre de Água (69º)
7.João Bandeira - Via Graça e Casa do Bacalhau (90º)
8.Sá Pessoa - Mercado da Ribeira (8º)
9.Alexandre Silva - Mercado da Ribeira (20º)
10.Kiko Martins - A Cevicheria e O Talho (11º)
b.TOP 10 Restaurantes
1.Sabores d' Itália (73º)
2.Casa da Dízima (80º)
3.Lisboète (88º)
4.Enoteca de Belém (94º)
5.Descobre (108º)
6.Via Graça (121º)
7.Manjar do Marquês (101 º)
8.Corte Inglês - restaurante principal (146º)
9.deCastro Flores (48º)
10.Sem Dúvida (179º)
Para os mais curiosos, o blogue Mesa Marcada, para o qual tenho um link, disponibiliza as listagens gerais dos chefes e restaurantes votados, bem como identifica os 103 votantes.