sábado, 3 de dezembro de 2016

Livros para o Natal

1.Para enófilos, militantes ou não
Para este universo, aconselho vivamente o livro do João Paulo Martins (JPM), "Histórias com Vinho & outros condimentos" (Ed. Oficina do Livro), com base em crónicas publicadas na Revista de Vinhos e em diversas outras publicações, algumas delas acrescidas de comentários do autor actuais.
Esta publicação divide-se em 3 partes:
1ª - Ao sabor da História (bem regada)
Aqui o JPM faz jus à sua formação base (História), informando o leitor que "A literatura portuguesa sobre vinho tem alguns nomes incontornáveis. Um deles é Rui Fernandes, autor que viveu em Lamego no séc. XVI e nos legou uma descrição pormenorizada sobre o Douro e o vinho". Sabiam disto? Eu, não. Também ficamos a saber que Cincinato da Costa, um estudioso da nossa agricultura e autor da monumental obra "O Portugal Vinícola", publicda em 1900, referiu em 1906, numa das revistas "A Vinha Portuguesa", que a vinha do Poceirão seria a maior do mundo (!), extendendo-se desde o Pinhal Novo até à estação do Poceirão. Também não sabia.
2ª - Tirar o vinho do sério
A veia humorística do JPM, está bem expressa nesta parte do livro, contando-nos umas tantas histórias hilariantes, algumas reais, outras imaginadas. Numa delas, "Os vinhos da Presidência portuguesa", engendra no Jornal à Mesa, em Março de 1992, uma situação surrealista à volta da concepção do Centro Cultural de Belém, brincando com o facto de o arquitecto Gregotti não ter previsto uma garrafeira no CCB. Comentou agora que afinal sempre abriu a tal garrafeira, Coisas do Arco Vinho, cujos proprietários (o Juca e eu) usaram o seu texto para promoverem a loja. De facto, a propósito deste artigo do JPM, escrevi no discurso do 1º ano das CAV, parcialmente publicado na brochura comemorativa do nosso 10º aniversário que a ficção se teria transformado em realidade.
3ª - A batalha da mesa
Num dos capítulos desta última parte, refere o autor que, a propósito dos restaurantes, "Normalmente pouco se fala dos vinhos e ainda menos sobre o seu serviço. E por serviço devemos ter em conta coisa muito simples como os copos, a temperatura do vinho e a sua eventual decantação, no caso de ter sido necessária". Assino por baixo e considero-me um enochato, quando o serviço de vinhos na restauração não tem o mínimo de qualidade.
Noutro capítulo, o JPM volta à carga, referindo que "(...) as cartas de vinho são uma miséria, e o serviço uma desgraça. Ressalvo aqui uma excepção que me vem sempre à memória e nunca é demais referir: o Manjar do Marquês, em Pombal (...)". Também assino por baixo e já o escrevi mais de uma vez em crónicas aqui publicadas.
2.Para principiantes
."O Vinho na Ponta da Língua", de Maria João de Almeida (Ed. Saída de Emergência)
."Especialista de Vinhos em 24 Horas", de Jancis Robinson (Ed. Casa das Letras)
."Branco ou Tinto?", de Joana Maçanita (Ed. Manuscrito)
."Guia Popular de Vinhos 2017", de Aníbal Coutinho (Ed. Presença)
A propósito, alguém deu pela saída do Guia do JPM?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Bagos Chiado : revisão da matéria

No espaço de 2 meses, visitei este restaurante 5 vezes (a solo, com a companheira, com o Grupo dos 3, com um casal amigo e no jantar Qtª do Vallado), tendo-o referido aqui nas crónicas "Curtas (LXXX) : Bagos Chiado (...)", "Grupo dos 3 : brancos em alta no Bagos Chiado" e "Jantar Qtª do Vallado (...)", publicadas em 27/9/2016, 13/10/2016 e 29/11/2016, respectivamente e que não esgotaram o que há para dizer sobre este espaço.
A lista de vinhos tem alguma originalidade, fugindo da "chapa 5" da maioria dos restaurantes, a preços sensatos. Inventariei 4 espumantes (1 a copo), 26 brancos (3), 34 tintos (3), 2 rosés (1), 3 Portos, 2 Madeiras, 2 Moscatéis e 1 Licoroso, podendo ser bebidos a copo todos os fortificados. A única crítica a fazer é que os vinhos da Região dos Vinhos Verdes foram colocados separadamente dos restantes brancos, o que não faz sentido. Nas cervejas, nota-se a ausência das artesanais que agora estão na moda e pelas melhores razões: é que depois de ter provado uma destas, acho intragáveis as industriais.
Quanto a vinhos bebidos neste espaço, para além dos referidos nas crónicas indicadas registei:
.Vinha de Reis 2014 branco - com base nas castas Encruzado, Bical e Malvasia; bom equilíbrio entre a acidez, os citrinos e a estrutura. Gastronómico. Nota 17,5.
.Vicentino 2014 tinto - aroma discreto, fruta vermelha, razoável acidez, volume e final médios. Nota 17.
Quanto a comeres na lista, curta, constam 6 entradas, 5 peixes, 4 carnes e 5 sobremesas que incluem arroz. Entre outros pratos, registei e comi com muito prazer:
.caldo de legumes com cogumelos e massa de arroz
.costoleta de borrego com salada de pera e farinha de arroz
.carolino de carne de porco com lingueirão e coentros (divinal!)
De registar que de 3ª feira a sábado, ao almoço, se pode comer por
.12 € (entrada ou sobremesa e prato) ou
.15 € (entrada, prato e sobremesa)
Finalmente, o Bagos Chiado já foi objecto de críticas muito favoráveis em:
.Expresso (Fortunato da Câmara) - "O Bagos Chiado junta a nossa cozinha de arrozes a um dos melhores cozinheiros nacionais"
.Time Out (Alfredo Lacerda) - atribuiu 4 estrelas no máximo de 5.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Jantar Qtª do Vallado : nota alta para a colheita de 2008

Mais um evento da Garrafeira Néctar das Avenidas, desta vez no restaurante do Henrique Mouro, o Bagos Chiado. O Francisco Ferreira desceu até à capital e apresentou, muito pedagogicamente, os seus vinhos mais recentes e outros já feitos, para se perceber como eles podem evoluir no bom caminho. Muito simpaticamente, o Francisco Ferreira referiu-se , em termos elogiosos, aos antigos donos e animadores das Coisas do Arco do Vinho, presentes no jantar. Obrigado, Francisco!
Quanto aos vinhos, com enologia dos dois Franciscos (Olazabal e Ferreira) desfilaram:
.Qtª do Vallado Reserva 2015 - com base nas castas Arinto, Gouveio, Rabigato e Viosinho, estagiou 7 meses em barricas de carvalho francês; presença de citrinos, fresco e mineral, acidez q.b., notas amanteigadas, madeira bem casada, algum volume e bom final de boca. Valeu 94 pontos no Parker e 18 valores na Revista de Vinhos. Gostaria de o voltar a provar daqui a mais uns anos. Nota 17,5+.
Acompanhou arroz de pato num croquete.
.Vallado Superior 2014 - com base nas castas Touriga Nacional (60 %) e Touriga Franca (40 %) da Qtª do Orgal, em produção biológica, estagiou 16 meses em barricas de carvalho francês; aroma intenso, notas florais, acidez equilibrada, taninos de veludo, encorpado e final de boca médio. Ainda com pouca complexidade, precisa de mais 5/6 anos. Nota 17.
.Qtª do Vallado 2008 (em garrafa de 5 litros) - aroma complexo, ainda com alguma fruta, notas especiadas, acidez equilibrada, taninos presentes, algum volume e bom final de boca. Equilibrado e elegante, evoluiu muito bem. Nota 17,5.
Estes 2 vinhos foram servidos com um pampo no forno, com o segundo tinto a harmonizar melhor que o primeiro.
.Qtª do Vallado Sousão 2014 - fruta preta, alguma acidez e taninos, volume médio e final persistente. Está muito novo e unidireccional, faltando-lhe complexidade, mas não sei se a idade a trará. Esta casta não faz a minha felicidade. Nota 16,5+.
Maridou bem com leitão assado, bagos e batata doce.
.Qtª do Vallado Reserva 2014 - arma complexo, muito frutado, acidez equlibrada, taninos domesticados, algum volume e bom final de boca. Ainda muito jóvem, vai melhorar daqui por mais 5/6 anos. Nota 17,5+.
.Qtª do Vallado Reserva 2008 - alguma fruta, notas florais e terciárias, acidez no ponto, especiado, algum chocolate e tabaco, taninos afirmativos mas civilizados, volume e final de boca assinaláveis. Muito elegante e harmonioso. O Vallado no seu melhor. Nota 18,5.
Estes 2 tintos acompanharam lebre com espuma de feijoca e cenoura.
.Qtª do Vallado 20 Anos - frutos secos, acidez equilibrada, algum iodo, taninos presentes, complexidde, algum volume e final muito longo. Nota 18.
Casou bem com um folhado de marmelada e arroz doce.
Foi, ainda, servido um surpreendente 10 Anos.
Quanto ao serviço, nada fácil com os participantes dispersos em 2 salas, correu com bom ritmo, apesar da equipa reduzida, onde brilhou a Ana, uma profissional de 5 estrelas.

sábado, 26 de novembro de 2016

Crónicas em atraso, mais uma vez

Não consigo acompanhar o ritmo frenético das actividades vínicas em que tenho participado, faltando "cronicar" ainda:
.Jantar Qtª do Vallado
.Encontro Vinhos e Sabores 2016 e Painel da Imprensa
.Almoço do grupo dos Madeiras
.Vertical de vinhos Meruge
.Vinhos em família
.Apresentação do Periquita António Zambujo
.Jantar Qtª das Bageiras
Uf! Só espero que o mês de Dezembro seja mais calmo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Grupo dos 3 (54ª sessão) : um Madeira de excepção

Mais uma sessão às cegas deste núcleo duríssimo, tendo sido o Juca a escolher o restaurante e a trazer vinhos da sua garrafeira (1 branco, 2 tintos e 1 fortificado). A prova decorreu no Bel' Empada (Av. João XXI, 24 mesmo ao lado do Napoleão) já aqui referido em "Belmiro Jesus e suas empadas", crónica publicada em 26/4/2016.
Aqui come-se muito bem, mas a sala, além de ser de reduzidas dimensões é excessivamente ruidosa, prejudicando um pouco a concentração necessária à degustação de vinhos de qualidade. Mais, neste espaço não se pode pagar com cartões, sejam Visa ou simples MB, estratégia do proprietário que não se entende de todo.
Os vinhos em prova foram:
.Chocapalha Reserva 2009 - com base nas castas Chardonnay e Viosinho, estagiou 6 meses em barricas novas de carvalho francês; ainda muito fresco e mineral, bela acidez a prolongar-lhe a vida, presença de citrinos, alguma gordura, volume e final de boca. Nota 17,5.
Acompanhou bem empadinhas de vitela, queijo fresco e paté de figados de aves, mas colidiu com os ovos mexidos.
.Charme 2007 - aberto na cor, nariz contido, aromas e sabores terciários, discreto e elegante, algum volume e final de boca. Nota 16,5+.
Maridou bem com um pampo grelhado e grelos.
.Crochet 2011 - com base nas castas Touriga Franca e Touriga Nacional; ainda com muita fruta, acidez equilibrada, notas de tabaco  e chocolate preto, volume e final de boca assinaláveis. Nota 18.
Fez um casamento feliz com uma empada de vitela e batata frita.
.Artur Barros e Sousa Moscatel Velho 1963 - frutos secos, notas de iodo e caril, acidez q.b., taninos envolventes, volume assinalável e final muito longo. Embora não se note muito a presença da casta, é um excelente e sedutor Madeira. Nota 18,5+.
Acompanhou um belíssimo marmelo assado.
Mais uma grande sessão. Obrigado, Juca!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

The Fork Fest (II) : restaurante Trio

O restaurante Trio (Rua Dom Francisco Manuel de Melo, 36A, a Campolide) foi o 2º espaço que visitei no âmbito do The Fork Fest, aproveitando a benesse dos 50 % de desconto. O proprietário e responsável pelos tachos é o chefe Manuel Lino, vindo do Tabik e que pratica uma cozinha de autor.
Na sala está o escanção Ricardo Cavaleiro, responsável por um serviço requintado e altamente profissional.
A carta de vinhos é original, mas um pouco confusa. No dia em que visitei este espaço, os vinhos a copo disponíveis não constavam da carta, enquanto os que lá constavam não existiam. Inventariei 1 espumante (na carta referido como sparkling!), 9 brancos (3 a copo), 2 rosés, 10 tintos (3), 2 Portos e 1 Moscatel, uma oferta nitidamente insuficiente e nada ambiciosa. Preços pouco amigáveis.
Optei por um copo do tinto Gilda 2015 (6 €) - um Bairrada, com base nas castas Castelão, Merlot e Tinta Barroca; muito frutado, alguma acidez, taninos presentes, alguma rusticidade, volume e final de boca médios. Nota 16,5.
A garrafa veio à mesa e o vinho dado a provar num bom copo, em quantidade generosa medida a olho. A temperatura estava nos limites, tendo sido este problema resolvido de imediato.
Foram servidos 2 entretém de boca (brioche recheado com alheira e crocante de camarão com carapau braseado) e, aproveitando os tais 50 %, comi entrada (endívia, puré de amêndoa e morcela), prato (bacalhau com grão, porco e ovo cozido a baixa temperatura) e sobremesa (crumble de sésamo com doce de abóbora e gelado de natas). Entrada surpreendente, mas o prato não me cativou.
A sala é pequena e algo intimista. Poderia ser o espaço ideal para uma refeição romântica, mas o volume da música de fundo não o permite.

sábado, 19 de novembro de 2016

The Fork Fest (I) : restaurante Great Tastings

O Great Tastings (R. Passos Manuel, 91A) foi um dos 2 restaurantes com 50 % de desconto na lista que tive a oportunidade de visitar. Este espaço, à semelhança do Descobre, é um 3 em 1, isto é, desdobra-se em restaurante, mercearia e garrafeira. Como sub-título, pode ler-se "eat drink share live", o que define o espírito da casa.
O proprietário, Pedro Gato de seu nome, apostou fortemente na componente vínica, permitindo que qualquer vinho possa ser servido a copo, incluindo Barca Velha ou Pera Manca. As garrafas têm 2 preços, sendo um para levar para casa e o outro acrescido de 8 €, se consumido na mesa.
A selecção é francamente positiva, com um leque de vinhos alargado nas gamas alta e média alta. Inventariei 15 espumantes, 47 brancos (1 é colheita tardia), 94 tintos, 2 rosés, 10 Portos, 4 Madeiras e 3 Moscatéis. Mais, na carta constam os anos de colheita, coisa que muitos restaurante se esquecem de incluir. O Great Tastings parece ser um caso único na nossa restauração e, daqui, tiro o meu chapéu aos responsáveis por este projecto.
Mas também é um espaço de contradições, pois alterna cadeiras e bancos pouco confortáveis com um serviço irrepreensivelmente profissional, os copos Riedel com os guardanapos de papel, a música demasiado alta com a excelente apresentação dos pratos e os preços acessíveis dos vinhos à garrafa com os preços do vinho a copo algo exagerados. Nada que não possa ser corrigido.
Optei por um copo do Qtª do Portal Grande Reserva 2011 (11 €) - ainda com muita fruta, acidez no ponto, especiado, notas de chocolate e tabaco, taninos presentes mas domesticados, grande volume e final de boca. O Douro no seu melhor! Nota 18,5.
A garrafa veio à mesa e o vinho dado a provar num bom copo, mas com a temperatura nos limites do recomendável.
O vinho acompanhou uma açorda de ameijoas e uma deliciosa chanfana à moda de Coimbra.
Resta dizer que se pode almoçar de 3ª a 6ª feira por 12,50 € (entrada, prato, sobremesa, bebida e café), um preço mais que razoável para uma refeição completa, num restaurante como este.
Tenciono voltar e recomendo este espaço a todos os enófilos, militantes ou não.