sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Júlia Vinagre : uma grande senhora caída no esquecimento

A Júlia Vinagre, uma grande senhora da gastronomia alentejana, retirada prematuramente da vida activa, acabou por cair no esquecimento. Mas é de inteira justiça vir aqui relembrá-la. Para quem não saiba, foi a primeira mulher a receber um prémio da Academia Portuguesa de Gastronomia, na categoria de "Director de Restaurante" e referido ao ano de 2002, que foi o seu ano de ouro.
Responsável pelo seu restaurante "Bolota Castanha" na Terrugem, pela "Galeria do Esporão", na Herdade com o mesmo nome e, posteriormente, pelo "Terreiro do Paço", desdobrava-se por todos eles, com a paixão e o frenesim que todos lhe reconheciam. Foi numa destas correrias que sofreu um grave acidente de automóvel que lhe interrompeu a sua fulgurante carreira e a obrigou a recolher à sua casa na Terrugem.
Conheci pessoalmente a Júlia Vinagre em 2002, quando a Cerger, empresa responsável por uma série de espaços de restauração, entre os quais A Commenda, resolveu promover um concurso interno para os seus chefes/cozinheiros. Para isso era necessário um júri que avaliasse e classificasse os candidatos ao prémio, tendo a Cerger convidado a Júlia Vinagre, o presidente da Associação dos Cozinheiros (Carlos Miranda, na altura) e a loja Coisas do Arco do Vinho. A esta fizeram ainda o desafio de escolher os vinhos que melhor se harmonizassem com as ementas a concurso. E é aqui que eu entro, na qualidade de responsável pelos vinhos nas CAV, tendo participado na maioria dos jantares e apresentando as bebidas escolhidas, normalmente 1 branco, 1 tinto e 1 generoso.
Ao longo de mais de uma dezena de sessões, tive a oportunidade de conhecer a Júlia, tanto como gastrónoma profissional como pessoa. A ela ficarei ligado por muita consideração e uma grande estima. Estas sessões eram muito didácticas e com a Júlia consolidei alguns conhecimentos na área da gastronomia, nomeadamente o equilibrio dos aromas e sabores na composição de um prato ou de uma ementa completa. Da parte da Júlia, sempre se mostrou interessada nos vinhos escolhidos, confidenciando que desconhecia a maior parte, pois nos seus restaurantes e naqueles que frequentava, as cartas eram muito semelhantes e sem grandes rasgos.
Um belo dia, entrou eufórica n'A Commenda, afirmando que acabara de ser convidada pelo Turismo de Lisboa para explorar e gerir o restaurante Terreiro do Paço. Mas, para aceitar tal honra, contava com o apoio das CAV na elaboração de uma carta de vinhos que se impusesse pela qualidade e diferença. Assim nasceu uma parceria, que mereceu na altura rasgados elogios da imprensa especializada ou generalista, e que acabou abruptamente quando do acidente acima referido.
Obrigado Júlia por a termos conhecido e os nossos votos para que seja sempre lembrada!

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