terça-feira, 31 de julho de 2012

Generosos do século XIX à prova em Porto Covo

Não, não foi uma prova aberta. Estas raridades e outros vinhos que adiante darei fé, foram provados (e bebidos) ao longo de uma grande jornada em casa do casal Natalina/Modesto Pereira, em Porto Covo, que tiveram a amabilidade de convidar o núcleo duro dos Vinhos da Madeira, que se junta periodicamente para apreciar alguns destes fortificados. Os privilegiados deste grupo são o Adelino de Sousa , que esteve na base destas sessões, Juca, João Quintela, Paula Costa, Alfredo Penetra, José Rosa, Modesto Pereira, eu próprio e, por arrastamento, as nossas caras metades.
Foi um autêntico banquete, organizado de um modo muito profissional, não tendo sido sequer esquecido imprimir o menu do almoço, com a respectiva lista de vinhos. Mas também foi uma memorável sessão de convívio, onde todos apreciaram a qualidade dos comeres e beberes. Nota alta para a Natalina e o Modesto. Eles esmeraram-se!
O repasto iniciou-se com um vinho de Porto Santo (levado pelo João), colheita particular e em cujo rótulo alguém escreveu à mão 1979, desconhecendo-se se esta data corresponde ao ano de colheita, de engarrafamento ou qualquer outra coisa. A casta poderá ser a Listrão, mas é só um palpite. O vinho, servido a uma temperatura algo inadequada, mostrou uma secura um tanto agressiva e é uma curiosidade. Ligou bem com frutos secos.
Com as entradas (peixinhos da horta, rissóis, casquinha de sapateira, cogumelos recheados e presunto Joselito Gran Reserva) foram servidos o espumante Vértice Millésime (que não provei) e o Soalheiro Alvarinho 2010, algo evoluído para a idade. Uma referência para o pão da D.Ercília (Vila Nova de Mil Fontes?). Não me lembro de comer pão tão bom na minha vida.
Com a canja de garoupa e ameijoas, avançou o Soalheiro Alvarinho 2011, versão magnum, mais fresco e mineral.
A lebre com grão foi acompanhada por 3 tintos, versão magnum:
.Esporão Reserva 09 - estagiou em carvalho americano e francês, tendo sido engarrafado em Abril 2010; rótulo da autoria do artista plástico Rui Sanches; frutos vermelhos, alguma exuberância, acidez equilibrada, taninos macios, bom final de boca, muito guloso, a consumir em 4/5 anos. Nota 17,5.
.Qtª Poço do Lobo Reserva 09 - medalha de ouro no concurso Melhores Vinhos da Bairrada; tem 50% de Touriga Nacional, 35% de Baga e 15% de Cabernet; estagiou 12 meses em carvalho francês; fruta discreta,  notas florais, frescura e acidez no ponto, taninos equilibrados, estrutura e bom final de boca. Em forma mais 7/8 anos. Nota 17,5+.
.Qtª Mouro Rótulo Dourado 07 - 96 pontos na escala Parker; tipicidade alentejana bem patente, complexidade, alguma fruta, notas de tabaco, chocolate preto e couro, acidez equilibrada, boca poderosa, final longo; gastronómico e com personalidade. Pode ser guardado mais 5/6 anos. Nota 18,5.
Com as sobremesas (tábua de queijos, tarte de amêndoa, bolo chifon, pinhoadas e salada de frutas), apresentaram-se o clássico Blandy Bual 77 (engarrafamento de 2007), sempre ao nível da excelência, e 2 raridades do século XIX:
.Vinho Velho do Porto 1881, engarrafado para a Imobiliária Construtora Grão Pará - frutos secos, notas de iodo, doce mas equilibrado com alguma acidez, estruturado, bom final de boca; cheio de saúde. Nota 17,5.
.Artur Barros e Sousa Boal 1880 P.J.L.* (levada pelos nossos amigos Adelino e J.Rosa) - côr cristalina, frutos secos, notas de iodo e caril, excelente acidez, final longo; saúde invejável. Nota 17,5+.
* Leio em "A Vinha e o Vinho na História da Madeira - Séculos XV a XX", de Alberto Vieira, que P.J.L. significa Pedro José Lomelino, fundador da adega, tendo-a passado ao seu sobrinho Artur Barros e Sousa, avô dos actuais proprietários, Artur e Edmundo.
Grande jornada. Obrigado Natalina e Modesto!
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domingo, 29 de julho de 2012

À descoberta do novo Terreiro do Paço (I)

O Terreiro do Paço, a sala de visitas dos alfacinhas, levou uma grande volta. Depois dos carros terem ido para outros lados, há já alguns anos, agora foi a vez da burocracia dos ministérios. No lado poente já existiam os restaurantes Terreiro do Paço e o Aura e, agora, chegou a vez da remodelação do lado nascente. Aí estão o Museu da Cerveja, o Nosolo Itália, o Ministerium, o Can the Can e o Populi. Não há fome que não dê em fartura. Obrigatório visitar este renascido Terreiro do Paço. E já agora, porque não um saltinho ao Martim Moniz e ao Intendente, que nada têm a haver com os respectivos passados?
O primeiro espaço visitado foi o Populi, que apostou forte nos vinhos, a começar com uma montra dos ditos que ocupa praticamente os dois pisos do restaurante. Acresce, ainda, uma série de armários térmicos para que as temperaturas de serviço sejam as mais correctas. Como mais valia, uma bela esplanada a poucos metros do Tejo.
A lista de vinhos, criteriosamente elaborada, inclui 2 preços, sendo o mais acessível para venda e o mais caro para consumo no restaurante. De um modo geral,ambos os preços são amigáveis. No entanto, lamentavelmente, não constam os anos de colheita e não contempla vinhos fortificados, embora inclua algumas referências estrangeiras. A copo, constam 8 tintos, 7 brancos, 1 espumante e 1 champanhe, também a preços cordatos.
Além do serviço à lista e duma boa oferta de petiscos, tem um menú executivo (de 2ª a 6ª feira) que inclui couver (pão, azeite, azeitonas, manteiga), prato, bebida (água, sumo ou vinho) e café, tudo isto por 11,50 €. Uma boa proposta, portanto.
A acompanhar um saboroso linguini com mexilhão, bebi o Qtª de Bacalhôa 2010 branco, que tive a oportunidade de escolher entre 7 possíveis a copo - fruta madura, acidez no ponto, madeira discreta,alguma estrutura, bom final de boca, gastronómico a ligar muito bem com o prato. Nota 17. Copo Schott e dose generosa servida a olho. No entanto, o copo já vinha servido e a garrafa só foi mostrada a pedido! Uma enorme gafe, a corrigir rapidamente. Quem aposta forte no vinho, não pode ter deslizes deste tipo.
A gerir a sala está o José Maria Azevedo, que eu já conhecia do Outro Rio (ex-Chico's), e nos tachos o chefe Luis Rodrigues, com passagem por vários espaços de referência.
Tenciono voltar e recomendo-o, sem reservas, esperando que os aspectos menos positivos já se encontrem resolvidos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Almoço na 1300 Taberna

O conceito da Taberna 2780, em Oeiras (ver crónica de 5/6/2010), foi adaptado ao espaço, muito maior e de inspiração industrial, na Lx Factory. A cozinha, de grandes dimensões é aberta, as mesas são corridas, mas as cadeiras muito confortáveis. Com o conceito veio, também, o seu criador, chefe Nuno Barros, que me parece ter-se desligado da 2780. O que me atraiu, para além da curiosidade de quem conhecia a 2780, foi o menú almoço a 15 €, que inclui couver (pão, azeite e manteigas), sopa ou sobremesa, prato principal, bebida (água, sumo ou copo de vinho) e café Nexpresso. Uma boa sugestão, mas cujo único inconveniente é não haver alternativas ao prato. Eu tive sorte, pois no dia da minha visita era cozido, com boa matéria prima e um toque criativo do chefe, que me soube muito bem. E acabei por pagar apenas 11,50 €, por se terem enganado no serviço (eu pedi sopa, que não veio, e acabou por ser substituida pela sobremesa), uma atenção que registo.
A lista de vinhos é alargada e a arrumação por características é bem intencionada, mas resulta confusa. Contabilizei 3 espumantes, 3 champanhes, 27 brancos, mais de 30 tintos, 2 rosés, 6 Portos, 1 Madeira, 1 Moscatel e 1 Carcavelos, que é um generoso que nunca faz parte das listas que conheço. Uma surpresa, portanto. Têm, ainda, 8 vinhos a que chamam icónicos, mas cujo conceito não entendi de todo. Então um Qtª da Estação, que se situa num dos patamares mais baixos do portefólio do produtor Domingos Alves de Sousa é um vinho icónico? Que grande confusão!
Quanto a vinhos a copo são 10 (5 tintos, 3 brancos, 1 rosé e 1 espumante), o que não sendo uma grande oferta parece-me adequada ao espírito daquele espaço. Os copos são Ridel, marcados com a capacidade 14 cl, mas gravados com a marca de um produtor, que será parceiro neste projecto, segundo me informaram. Serviço de vinhos profissional, com temperaturas adequadas, contando para isso com armários térmicos, uma mais valia.
Bebi, a copo, o tinto Quatro Caminhos 2009, 1º Prémio da Confraria dos Enófilos do Alentejo e portador do selo Boa Compra 2011, atribuido pela Revista de Vinhos - frutos vermelhos, exuberante, déficite de acidez, taninos vigorosos, guloso, estilo moderno e no ponto para consumir; falta-lhe tipicidade. Nota 16,5+.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Petiscos em Lisboa (IV)

Já tem quase 1 ano a minha 1ª crónica à volta dos petiscos em Lisboa (ver em 11/9/2011), referindo o conceito WE Wine Element, com o primeiro wine bar a abrir na Lx Factory, dentro da Livraria Ler Devagar, neste momento já descontinuado. Entretanto abriram mais 2, um junto da Estação do Rossio e o outro na Rua Braancamp, 72.
Visitei este último há pouco mais de um mês. Espaço muito agradável e aconchegado, especialmente no piso superior, aposta forte nos petiscos com uma boa oferta de tapas combinadas, queijos, enchidos, etc. Mas também tem, de 2ª a 6ª feira, um menú a 7,50 €, com direito a sopa, prato (a escolher entre 2), bebida (água, sumo ou copo de vinho) e café. Serviço profissional, com a garrafa a vir à mesa e o vinho dado a provar. Copo de qualidade, marcado com 15 cl (uma boa medida), evitando que se sirva a olho como é habitual na maior parte dos locais com vinho a copo.
A lista, normalizada, inclui todos os vinhos em que o João Portugal Ramos participa, sendo neste momento  23 que abrangem  as regiões Alentejo, Douro, Tejo e Beiras. Fora deste universo, aparecem alguns vinhos fortificados (Burmester Tawny e Extra Dry, Madeira Henriques e Henriques e, ainda, Moscateis de Favaios e de Setúbal) e o Muralhas (não poderiam ter sido mais originais?). Lamentavelmente, os vinhos aparecem sem indicação do ano de colheita, e os preços, da garrafa e a copo, poderiam e deveriam ser mais acessíveis, uma vez que a J.Portugal Ramos é parceira no projecto.
O vinho da casa, que acompanhou o menú, foi o Conde Vimioso 2011 branco - simplesmente correcto, pouca acidez, algo pesado e curto na boca. Nota 13.
Em conclusão, um espaço simpático onde se pode almoçar ou petiscar e beber um copo ao final da tarde.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A grande festa do vinho a copo (versão 2012)

À semelhança do que se passou em 2011 (ver crónica de 5/11/2011), este ano a ViniPortugal, com o apoio da Revista de Vinhos, voltou a promover o vinho a copo nalguns restaurantes e bares do Bairro Alto, a festa transvasou para a rua e foi um êxito.
Em relação ao ano passado, pareceu-me que a ViniPortugal teve mais cuidado na elaboração dos cartazes de promoção do evento. Os cartazes que vi estavam correctos e os respectivos figurantes foram ensinados a pegar no copo. Já é um avanço.
Quanto aos participantes, a avaliar pelas fotografias que a RV publicou, ainda têm muito a aprender, mas faço votos para que nos próximos anos haja sinais positivos nessa área. No entanto e a respeito do wine bar Bairru's Bodega, quando se afirma "Aqui o rei é senhor, até porque as sócias são conhecedoras (...)" fico algo perplexo, pois as ditas nem sequer sabem pegar no copo! São profissionais e, como tal, não têm desculpa, ficaram mesmo mal na fotografia! Nada que não se corrija com uma formação adequada.
Como contraponto dos aspectos menos positivos, foi a presença de uma equipa da campanha Wine in Moderation que controlava o nível de alcoolemia a quem o solicitasse. Uma mais valia do evento.
A terminar, pena foi que a reportagem da RV fosse omissa quanto aos  vinhos em prova. Seria interessante sabermos  regiões, castas e marcas envolvidas. A rever, futuramente.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O blogue está de regresso

Após uma semana de férias na Maragota, algures entre Tavira e Olhão, o enófilo militante está de regresso. Período bem aproveitado para leituras e provas de vinhos brancos, que foram o que me apeteceu beber. Nas leituras, destaque para uma segunda apreciação de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", um dos três livros mais empolgantes do José Saramago, o nosso Nobel da literatura (os outros são,  para mim, "Ensaio sobre a Cegueira" e "Memorial do Convento"). Apenas 2 referências a vinhos, no primeiro dos livros citados, uma a Colares e a outra a um espumante da Bairrada, que teria sido utilizado no lançamento à água do navio João de Lisboa.
Esta semana de férias deu para provar alguns brancos, de que passo a dar notícia, embora sem desenvolvimento, pois férias são férias. Apenas um reduzido apontamento, por ordem cronológica:
.Qtª de Camarate Seco 2010, já aqui referido quando do Evento Wine Bloggers, na José Maria da Fonseca (25/10/2011)
.Morgado de Bucelas Arinto 2011 e
.Herdade da Gâmbia 2011 (V.R.Península de Setúbal), este com as castas Moscatel e Fernão Pires. São 2 brancos correctos, próprios para esta altura do ano e ambos produzidos pela Sociedade Agrícola Boas Quintas, ou seja, Nuno Cancella de Abreu.
.Qtª da Pedra Escrita 2010 (Regional Duriense), produzido por VDS e elaborado pelo Rui Reboredo Madeira. Foi a grande surpresa da semana. Recomendo-o vivamente.
.Ninfa Escolha Sauvignon Blanc 2011 (Vinho Regional Tejo), produção de João M. Barbosa. Outra boa surpresa, mas que pede um prato com algum peso, para aguentar o estágio de 6 meses em carvalho francês.
Nunca o vi à venda.
.Palato do Côa 2010 (Douro), produzido por 5 Bagos, a partir de vinhas velhas com destaque para as castas Rabigato e Viosinho.
.Casa da Atela Gewurztraminer 2010 (V.R. Tejo), um branco correcto à nossa escala, mas longe do original.
Estes brancos foram bebidos em Tavira, em casa de um filho meu, com excepção do Ninfa, consumido no restaurante "Bate que eu abro" (que raio de nome!), situado em Altura (entre Manta Rota e Praia Verde), que considero um digno representante da da cozinha algarvia.

sábado, 14 de julho de 2012

O blogue vai de férias

O blogue vai emigrar, pelo que na próxima semana não haverá crónicas para ninguém. Ficam por publicar umas tantas crónicas:
.Mais petiscos em Lisboa (WE - Wine Element e 1300 Taberna)
.Uma volta pelo novo Terreiro do Paço (restaurante Populi)
.Rescaldo da ida ao Norte (Vidago e Melgaço)

O meu "não-assunto"

Inspirado neste tema (quem tal diria?), relacionado com a badalada licenciatura instantânea do braço direito do nosso 1º, também tenho um não-assunto para contar. Ora, este não-assunto, adaptado ao mundo do vinho, passa a ser uma não-garrafeira. Passo a explicar, o Vidago Palace, recentemente reconstruído e ampliado, publicita, no seu portal, uma cave de vinhos, onde se pode:
.provar bebidas a copo ou à garrafa, com incidência nos vinhos do Porto e do Douro
.degustar presunto de Chaves ou tapas diversas
.jantar na mesa do chef, com capacidade para 12 pessoas
Visitado o espaço, onde exteriormente se pode ver uma placa intitulada "Garrafeira", constata-se que nada do descrito funciona. O espaço, aliás belíssimo e amplo, está praticamente despido e, quanto a vinhos, limita-se a meia dúzia de caixas da Qtª da Casa Amarela. Sugiro aos responsáveis do Vidago Palace que a placa seja alterada para "Não-Garrafeira", para ficar mais de acordo com a realidade.
De qualquer modo, considero imperdível visitar o interior do Palace e todo o espaço envolvente. Verdadeiramente empolgante!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Vinhos em família (XXXIV)

Mais alguns vinhos provados em família, uns da minha garrafeira e outros à mesa de restaurantes. São 4 brancos e 1 tinto:
.Qtª dos Currais Colheita Seleccionada 08 (Beira Interior) - côr algo evoluída, notas de melão, alguma exuberância, tostado e untuoso, acidez a equilibrar, bom final; um vinho original e uma boa surpresa, mas um contra (teor alcoólico 14,5% vol, o que considero excessivo). Nota 17. Bebido no Petit Algés.
.Soalheiro Allo Alvarinho/Loureiro 11 - aromático, notas tropicais dadas pela alvarinho, frescura e acidez vindas da loureiro, boa persistência final. Nota 16. Bebido no Mar do Inferno.
.Muros Antigos Alvarinho 11 - vinificado exclusivamente em inox, austero, frutado sem a componenete tropical, notas minerais, fresco, complexidade e finais médios. Um pouco abaixo da versão 2010, há que lhe dar tempo de garrafa. Nota 16,5. Um dos vinhos do Anselmo Mendes, o senhor Alvarinho de Melgaço e de Monção, segundo o José A. Salvador in "Os autores dos grandes vinhos portugueses", Edições Afrontamento 2003. Curiosamente, na última Revista do Expresso, foi o único produtor ou enólogo incluído nos 100 portugueses com maior influência em 2012 (escolha do João Paulo Martins).
.Morgado Stª Catherina Reserva 09 - estagiado 10 meses em barricas decarvalho francês, sem a madeira se impôr; citrinos, melão, notas florais, excelente acidez, estrutura e bom final; gastronómico. Medalha de ouro no International Wine Challenge, o que para um branco português é um grande feito. Ainda não atingiu o patamar do 2008, mas para lá caminha. Nota 17,5 (noutras situações 16,5+/17,5/17,5).
A propósito deste vinho, ocorre-me uma conversa com o Nuno Cancella de Abreu, quando ele era responsável pela enologia dos vinhos da Qtª da Romeira, ao referir a dificuldade na venda do Morgado. No entanto, bastou mudar a garrafa de renana para borgonhesa e alterar a grafia de Catarina para Catherina, para tudo se alterar. Coisas do marketing!
.Noval 05 - austero, próximo da terra, notas de couro e tabaco, boa acidez, potência de boca e bom final. Um bom trabalho do António Agrellos, que se estreou, em vinhos de consumo, com  a colheita  2004. E, se bem me lembro, a colheita de 2004 foi lançada num dos jantares organizados pelas CAV. Nota 18 (noutras situações 18,5/18,5/17).

sábado, 7 de julho de 2012

Os anos do Raul

No passado dia 1 de Julho, o nosso amigo Raul Matos, da linha duríssima da antiga tertúlia das CAV, fez mais 1 anito e comemorou-o com a família e um grupo de amigos enófilos, no qual me incluo. A festa teve lugar no restaurante As Colunas, já aqui citado em diversas ocasiões. O Raul, como enófilo que se preza, é sobejamente conhecido por partilhar connosco as preciosidades da sua garrafeira. Com ele já provámos (e bebemos) largas dezenas de vinhos, todos topo de gama. Algumas dessas provas, as mais recentes, estão comentadas neste blogue (ver crónicas de 23/4/2010, 28/11/2010, 21/5/2011, 18/10/2011 e 17/11/2011).
Neste seu aniversário, o Raul partilhou:
.Soalheiro Alvarinho 2011, em magnum - mais impressionante do que a versão 2010, tanto no nariz como na boca. Nota 17,5+. Acompanhou pasteis de massa tenra, requeijão, camarões e salada de peixe, atum e gambas.
.Vallado Touriga Nacional 2009, em magnum - nariz ainda muito fechado, notas florais discretas, acidez equilibrada, taninos presentes e bom final de boca; precisa de tempo de garrafa para se mostrar. Ó Raul, é pedofilia beber este vinho agora. Nota 17,5.
.Vallado Reserva 2007, em garrafa de 5 litros - fruta ainda presente, especiado, notas de tabaco, acidez a dar-lhe longevidade, bem estruturado, complexo e final longo; muito gastronómico, em forma mais 7/8 anos. Nota 18,5. Os tintos beberam-se com cabrito e borrego assados com arroz de miudos. Um bom casamento com o 2007.
.Blandy Bual 1959 (sem data de engarrafamento) - sem a complexidade a que estamos habituados, mas com um final muito longo. Nota 17,5.
.Blandy Bual 1971 (engarrafado em 2004) - muito mais complexo, frutos secos, iodo, brandy, vinagrinho, grande estrutura e final interminável. Um Madeira ao nosso estilo. Nota 18,5+.
Depois de ter bebido estes 2 Madeiras, já não havia hipótese de apreciar os Porto Vintage que estavam na mesa, Dow's 1960 e 1980 e Warre 1994.
Mais uma grande jornada. Parabéns ao Raul e obrigado pelo convite!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Só desgraças...

Na minha busca de locais interessantes em Lisboa, onde se pode petiscar, comer um menú ou bufete a preço de crise, dirigi-me ao Largo Vitorino Damásio (a Santos) com o objectivo de conhecer o SINS, aberto há pouco tempo e que veio a ocupar o espaço do Copo d' Três (?) e, posteriormente de um italiano. A porta estava só parcialmente aberta, mas o empregado, que estava no exterior, informou-me que o restaurante estava encerrado. Motivo? "Não nos pagam os salários", respondeu. Sem comentários...
Entrei no pátio ao lado, onde se situou o JA (o José Avillez para refeições ligeiras), que entretanto rumou a Cascais, deixando o espaço para outra gente, com outro nome que não retive. Azar,  no exterior podia ler-se "Aluga-se" ou "Vende-se", já nem sei.
Subi a D. Carlos I e dirigi-me ao BeBel Bistrô, situado mesmo em frente das escadarias da Assembleia da República. Na ardósia, onde constava a ementa, podia ler-se "não temos MB". Perante esta irritante falta, segui caminho. Passei à porta do Gemeli, onde não tencionava entrar, mas li mais ou menos isto: almoços, só por encomenda.
Próxima etapa, Praça das Flores, onde me dirigi ao Nova Mesa, onde têm funcionado inúmeros espaços de restauração e onde nasceu, na década de 80, que eu saiba, o primeiro restaurante/wine bar de Lisboa, o Copo de Três. Questionada a empregada sobre os pratos do dia, em opção, que compunham o menú da crise, tive como resposta um prato de carne e zero de peixe, que era aquilo que me apetecia.
Não fiquei e fui aterrar na esplanada do Pão de Canela, também na Praça das Flores. A fome e o desespero já eram muitos. O almoço, esse, não teve história e, quanto a bebidas, fiquei-me por uma imperial.
Era nesta praça que se situava o clássico restaurante Conventual, encerrado há cerca de 2 anos e que chegou a ser estrela Michelin, na década de 90.
Para carregar esta crónica ainda com cores mais negras, falta referir que, no caminho para o SINS, passei à porta do Manifesto, do nosso amigo Luis Baena (onde estive por diversas vezes e disso dei conta nas crónicas de 9/4/2010, 2/12/2010, 9/1/2011 e 16/4/2011; inesquecivel o almoço que preparou para as CAV, na sua fase de Catralvos, que lembrei quando dos 50 anos do António Saramago na crónica de28/5/2012), que encerrou em 15/6. Era uma morte anunciada, pois a decisão já fora tomada em 2011. Um novo projecto em Londres esteve na base dessa decisão.
Fecharam também as portas, o Bocca e o Vin Rouge, qualquer deles objecto de amores e desamores da minha parte (ver crónicas de 4/11/2010 e 23/2/2012). De qualquer modo, lamento estes infelizes desfechos.
Com tanta desgraça, há dias em que uma pessoa não deve sair à rua!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um dia com a Margarida Cabaço: São Rosas, senhores...

Grande jornada a que a Margarida Cabaço (MC) nos proporcionou neste sábado passado. O passeio a Estremoz foi organizado pelo João Quintela (Garrafeira Néctar das Avenidas), a que aderiram 18 militantes, a maioria dos quais, como não podia deixar de ser, pertenceu ao antigo núcleo duro das CAV. A visita começou no Monte da Azinheira, onde a MC reside com o marido, Joaquim Cabaço, responsável pelas vinhas. Aí visitou-se uma vinha velha e petiscaram-se uns queijos e enchidos, acompanhados pelo branco 2010. A jornada terminou em grande no restaurante São Rosas, com um almoço criado pela dona e que vai ficar na nossa memória. Conheço o restaurante, praticamente desde a sua inauguração em 1994, logo que o José Quitério publicou no Expresso uma crítica altamente elogiosa. A MC, conheci-a, pessoalmente, quando da 2ª edição do jantar "Vinho no Feminino", organizado pelas CAV em 29/4/2005, na sequência de uma ideia/proposta da nossa amiga Laura Regueiro. Nesse jantar foram galardoadas a Maria de Lourdes Modesto (a decana da gastronomia), a Margarida (na qualidade de responsável pelo São Rosas) e a Paula Costa (enófila, amiga e cliente das CAV).
O projecto Monte dos Cabaços nasceu com o Colheita Seleccionada 2001, tendo o 1º Reserva aparecido em 2004 e o 1º branco em 2005. O Luis Duarte foi, inicialmente, o responsável pela enologia e a Susana Esteban, entrada para a equipa em 2006, sucedeu-lhe.
Mas vamos aos comeres e beberes:
.Colheita Seleccionada 2010 branco - com base na casta Roupeiro de vinha velha, a que se juntaram Antão Vaz e Arinto, vinificado exclusivamente em inox - austero, fruta, frescura, alguma complexidade e estrutura, gastronómico. Nota 16,5+. Acompanhou um agradável cogumelo recheado com gambas.
.Margarida 2009 branco - vinho estreme de Encuzado, uma casta que não me parece ainda ambientada ao Alentejo; austero, a madeira ainda muito presente, menos fresco que o anterior. Pode ser que nas próximas colheitas...Nota 15,5. Com este branco avançou uma generosa garoupa com batata esmagada e espargos selvagens.
.Colheita Seleccionada 2006 - fresco, ainda com fruta, notas fumadas e couro, taninos domados, tipicidade evidente, gastronómico, no ponto para ser consumido. Nota 16,5 (tiro o meu chapéu a este produtor, porque só agora vai pôr o 2007 no mercado, em contra-mão com a maioria que já tem à venda a colheita de 2010). Foi lindamente com borrego no forno, batata assada e esparregado.
.Margarida 2008 - com base na casta Syrah, vinificado em lagar e estagiado parcialmente em barricas de carvalho francês; fresco, fruta evidente, fumado, notas especiadas, estruturado ainda com os taninos por domar, final longo, gastronómico. Uma bela surpresa. Nota 18. Acompanhou bem arroz de pombo.
.Reserva 2005 - alguma fruta, algo floral, especiado, notas de tabaco, boa acidez, taninos domesticados, estrutura e bom final de boca. Nota 17,5+. Não gostei da ligação ao pudim de água. Uma pena a MC não produzir Madeiras ou tawnies velhos! 
Estupendo almoço, em que apreciei particularmente os pratos de substância (o borrego e o pombo). Obrigado Margarida, uma cozinheira de mão cheia, uma produtora consistente e, até, pintora responsável por alguns dos rótulos!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

2 Anos de Assinatura (II)

Continuando...
3.Os comeres, os beberes e as maridagens
.Espumante Vértice Reserva Cuvée Bruto 2009, do nosso amigo Celso Pereira - aromas a pão fresco, bolha fina, elegante, equilibrado e deveras gastronómico. Nota 16,5. Serviu de bebida de boas vindas e fez um casamento seguro com os 2 primeiros momentos, flor de courgete recheada com caviar de beringela e bacalhau desfiado, em creme de tomate assado e, ainda, trio de cantarelos (com ovos mexidos, marinados em salada e em canja de pato).
.Soalheiro Alvarinho 2011 - aroma intenso, notas tropicais, acidez no ponto, arquitectura e bom final de boca, mais impressionante do que o 2010, tanto no nariz como na boca. Nota 17,5+. Fez uma óptima maridagem com o 3º momento, legumes da horta.
.Terra d' Alter Alfrocheiro 2010 - demasiado novo, algo verde, acidez acentuada, taninos nervosos, final doce a torná-lo algo enjoativo. Nota 16. Casou mal (divórcio à vista?) com o 4º momento, sardinha assada com xarém de bivalves e tomate confitado. Teria ficado melhor com o Soalheiro.
.Qtª dos Murças Reserva 2008 - frutado, notas florais, boca poderosa, acidez q.b., equilibrado e elegante, final longo, tem ainda muitos anos à frente. Nota 18,5. Casamento perfeito com o 5º momento, plumas de porco alentejano, com feijoada de caracóis e espuma de feijão branco.
.Malvedos Vintage 1999 - ainda muito jovem, com características de um bom LBV, mas sem arcaboiço para Vintage. Ligação tumultuosa com a sobremesa, trio de alperce (leite de creme, gelado e desidratado). Teria sido um enlace mais feliz com um Madeira ou um tawny velho.
Em conclusão, uma bela jornada digna da comemoração do 2º aniversário do Assinatura. Obrigado Henrique Mouro, parabens e felicidades para a continuação do projecto!

domingo, 1 de julho de 2012

2 Anos de Assinatura (I)

1.À guisa de introdução
No passado dia 28 de Junho, o chefe Henrique Mouro (HM) comemorou o 2º aniversário do Assinatura, para mim  o melhor restaurante de autor, localizado em Lisboa. Conheci a cozinha do HM no Club, em Vila Franca, há já alguns anos, onde passei a ir quando o saudoso Flora encerrou definitivamente. Mas o HM já estava de saída, e vim a reencontrá-lo há 2 anos neste seu Assinatura.
Destaco nele a criatividade, o rigor, a busca da perfeição, o trabalho que tem desenvolvido (os jantares temáticos, os jantares vínicos, etc) e a humildade, ao aceitar uma crítica com o maior dos sorrisos. Era fácil ter-se deitado à sombra da bananeira, mas o HM não o fez. Para quem tiver curiosidade, o HM está presente nas seguintes crónicas que podem ser lidas neste blogue:
.21/07/2010 - Jantar no Assinatura
.20/10/2010 - Henrique Mouro no seu melhor
.18/11/2010 - Caça no Assinatura
.13/01/2011 - O Assinatura continua em alta
.02/04/2011 - Duas confirmações : Assinatura e ...
.21/04/2011 - Cabrito estonado no Assinatura
.20/05/2011 - Mais um belo jantar no Assinatura
.27/11/2011 - Caça no Assinatura
.15/01/2011 - Jantar Quinta das Bageiras
.13/02/2012 - Jantar Wine & Soul
.14/04/2012 - Jantar Lavradores de Feitoria
2.Os sortudos
O HM teve a gentileza de convidar, segundo os seus critérios, os responsáveis por meia dúzia de blogues, a maioria dos quais tenho acompanhado intermitentemente. Para a memória do futuro, compareceram à chamada:
.Cinco Quartos de Laranja (Isabel Ziboia Rafael)
.Conversas à Mesa (Fátima Moura)
.Enófilo Militante (eu próprio)
.Gastrossexual (Pedro Cruz Gomes)
.Mesa do Chef (Raul Lufinha)
.Virgílio Gomes (Virgílio Gomes)
e, ainda, João Quintela (responsável da Garrafeira Néctar das Avenidas), parceiro do HM nos jantares vínicos.
3.Os comeres, os beberes e as maridagens
A desenvolver em próxima crónica.