domingo, 18 de janeiro de 2015

O José Quitério e eu...

1.Quando li a Revista do Expresso reformulada (publicada em 10 de Janeiro), agora com um novo formato e novo título (E), ocorreu-me uma conversa tida com o João Paulo Martins (JPM), quando da última visita à Herdade das Servas, em Outubro de 2014. Lastimava-me eu, na qualidade de leitor deste semanário desde o nº 1, pelo facto de o José Quitério (JQ) andar desaparecido há já alguns meses. Uma grande frustação para muitos leitores, alguns dos quais só o compravam para saber qual o restaurante objecto da crítica do JQ. Não seria o meu caso, mas quando abria a Revista, procurava a página do JQ, antes de tudo.
Perguntou-me o JPM quem eu achava que deveria continuar o trabalho do JQ, uma vez que este conceituado crítico estava incapacitado para voltar a trabalhar, por motivs relacionados com a sua saúde. O Fortunato da Câmara (crítico no Público e autor do livro Mistérios do Abade de Priscos), respondi-lhe sem qualquer hesitação, é o único crítico com saber e qualidades para ser o continuador do JQ. Coincidência ou não, acertei na "mouche"!
2.O JQ é, a par da Maria de Lourdes Modesto, uma instituição na área da gastronomia, com obra publicada (Livro de Bem Comer, Histórias e Curiosidades Gastronómicas e, ainda, A Gastronomia na Literatura Portuguesa, que eu me lembre). À conta de muitas das suas críticas, percorri quilómetros para conhecer os restaurantes criticados, resultando daí algumas desilusões, mas muitos momentos de prazer.
Mas também o inverso aconteceu, isto é, ser eu a dar alguma "dicas" ao JQ. Uma delas, talvez a mais importante, foi ter-lhe aconselhado uma visita ao saudoso Flora (restaurante da Residencial com o mesmo nome, em Vila Franca de Xira), que eu "descobrira " recentemente após leitura de uma crítica do David Lopes Ramos de boa memória. Encontrámo-nos, algum tempo depois, num lançamento de vinhos da José Maria da Fonseca, se a memória não me atraiçoa. Disse-me, então, o JQ, que eu tina razão, pois o Flora era um templo gastronómico, graças ao seu mentor, o Pedro Miguel Gil. Perdou-o-lhe o reaccionarismo, acrescentou. Passados uns dias, tive o maior prazer de ler no Expresso uma grande crítica do JQ, ocupando as páginas centrais da Revista, a pôr o Flora nos píncaros da Lua.
3.Quando dos trabalhos preparatórios para elaboração do projecto Coisas do Arco do Vinho, eu e o Juca combinámos encontros com pessoas já nossas conhecidas, que se movimentavam no mundo do vinho e da gastronomia (David Lopes Ramos, José Salvador, Luis Lopes, JPM e JQ, entre outros).
O JQ aproveitou para visitar, connosco, um restaurante que precisava de escrever sobre ele. Chamava-se Café da Lapa e tinha a comandar os tachos, o chefe Joaquim Figueiredo (Bica do Sapato, Tavares Rico, etc).
Sou testemunha de todos os cuidados postos pelo JQ:
.de costas para a cozinha, para evitar ser reconhecido
.ditar a ementa e preços para o gravador que tinha no bolso, não tomando quaisquer notas
.obrigar-nos a escolher pratos diferentes, para os poder provar também
No final, não nos deixou pagar a conta. Quem vai pagar é o patrão (o Expresso), estamos aqui a trabalhar!
Profissional a 100 %, apesar do reconhecido mau feitio!

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