terça-feira, 15 de dezembro de 2015

678 anos de vinhos fortificados ou o Francisco, o Jorge e a Sandra jantaram connosco

1.Introdução
Por iniciativa do nosso amigo Adelino de Sousa que fez os contactos, trouxe vinhos (2 Porto Vintage, 1 Moscatel e 1 Madeira) e aperitivos/sobremesas (manteiga de ovelha, enchidos fatiados, queijo da serra, frutos secos e bolo de mel madeirense), decorreu recentemente um jantar de excepção (para mim, o repasto da década) no restaurante Casa da Dízima. A gastronomia esteve à altura dos acontecimentos e o serviço, sob a batuta do Pedro Batista, gerente deste espaço, foi de 5 estrelas.
2.Os convidados e os privilegiados
Para memória futura, que fique registado o que se segue.
Como nossos convidados de honra, estiveram presentes o Francisco Albuquerque (aqui lhe agradeço publicamente o comentário que fez à minha crónica "A Madeira em Lisboa", publicada em 8/12, o Jorge Serôdio Borges e a Sandra Tavares da Silva, nossos amigos desde há anos, todos mais que conhecidos, dentro e fora do país, e cujo reconhecimento em Portugal apenas pecou por tardio. Fizeram boa companhia e trouxeram vinhos com eles. Sentimo-nos honrados com a sua presença.
Participaram 10 privilegiados, com base no nosso grupo de prova de vinhos fortificados (Adelino de Sousa, casais Juca/Lena e Modesto/Natalina, João Quintela, Paula Costa, Alfredo Penetra, José Rosa e eu próprio). Esteve, ainda, o João Rosa, militante destas coisas, vindo expressamente de Londres para o efeito.
3.Os vinhos e a gastronomia
Nota - as minhas impressões sobre os vinhos provados, serão obviamente pessoais e telegráficas:
,Gurú 2008 em magnum (trazido pelo casal Jorge/Sandra) - belíssima acidez, volumoso e consistente, melhorou claramente com estes anos de garrafa. Pedofilia bebê-lo ainda jóvem. Nota 18.
.Casal Santa Maria Sauvignon Blanc 2014 em magnum (trazido pelo João) - espargos amargos a dominarem o conjunto, no entanto mais bebível do que uma outra provada há pouco tempo e que detestei. Nota 16.
Os 2 brancos foram acompanhados pelos aperitivos, amuse bouche (à base de foigras fresco) e entrada (um belíssimo creme de santola).
.FEM (as iniciais do avô do Francisco) Verdelho Muito Velho (da garrafeira do José Rosa) - nariz intenso, vinagrinho, iodo, elegante, volume envolvente e final interminável. Já leva mais de 100 anos! Nota 18,5+.
Este Madeira serviu para limpar o palato entre a entrada e o prato principal.
.Domaine Chantal Louis Remy Clos de la Roche Grand Cru 2004 (trazido pelo João Rosa) - um borgonhês credenciado que, confesso humildemente, não o entendi de todo (se fosse português diria que tinha defeito...). Sem nota.
.Passadouro Reserva 2004 em magnum (veio com o Jorge) - muito pujante, ainda com os taninos algo agressivos, está longe da reforma. Nota 17,5.
.Qtª da Pellada Baga 2000 (da garrafeira do Juca) - fresco e elegante, ainda tem muito para dar; uma bela surpresa. Nota 18.
.Pintas 2002 em magnum (veio com o casal Jorge/Sandra) - rolha! (azar o nosso); foi rapidamente substituído por uma garrafa de
.Pintas 2005 (empréstimo do restaurante) - muito complexo e especiado, volume e final de boca consideráveis. Nota 18,5.
Estes 4 tintos harmonizaram bem com um excelente naco de vitela com puré de batata.
.Noval Vintage 1958 (engarrafado na Grã Bretanha por Whitwham & Co) e
.Taylor's Vintage 1960 (também engarrafado na Grã Bretanha) - têm ambos um perfil que os aproxima dos Colheitas, tanto na côr, como no nariz e na boca; são ambos elegantes, sofisticados e com uma boa acidez. No entanto, o Noval impõe-se pelo seu volume e estrutura, estando o Taylor's mais "soft". Notas 18 e 17+, respectivamente.
Os 2 Vintage, vindos da garrafeira do Adelino, casaram bem com um queijo Fornos de Algodres, de meia cura.
.Moscatel de Setúbal Superior 1918 (também trazido pelo Adelino) - notas de mel e citrinos, boa acidez, muito equilibrado, com tudo no seu sítio; fácil de gostar, apesar da sua complexidade. Nota 18+.
.Família Serôdio Borges Porto Colheita 1918 (da garrafeira do Jorge, produzido pelo seu avô) - ainda muito jóvem apesar dos seus quase 100 anos, taninos ainda não totalmente domados; volume e potência de boca. Para homens de barba rija! Nota 18.
Estes 2 fortificados, com perfis completamente opostos, ligaram bem com as sobremesas.
.Henriques & Henriques Terrantez 1825 ou 1827 (da garrafeira do Adelino) - engarrafado em 1939, muito subtil e de grande complexidade, tem uma boca arrasadora, apesar de já estar próximo dos 200 anos de idade. Uma autêntica relíquia, provada com todo o respeito e um corpo espectacular que um crítico comparou à Scarlett Johansson, atribuindo-lhe 98 pontos em 100! Nota 19.
.Campanário Bual 1933 (trazido pelo Francisco) - aroma algo estranho (ou seria eu que já tinha o nariz baralhado?), muito seco e algo desequilibrado. Nota 16,5.
Estes 2 Madeiras foram acompanhados apenas por frutos secos e as habituais pinhoadas de Santiago de Cacém, oferecidas pela Natalina.
4.Conclusão
Foi uma grande jornada, dificilmente repetível, até porque estavam em cima da mesa qualquer coisa como 678 anos, só de vinhos fortificados!
Mais, uma palavra de apreço à Casa da Dízima, que resolveu e bem, o problema logístico. Passaram pela mesa nada menos, nada mais que cerca de 200 copos para vinho, não contando com os da água!

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