sábado, 14 de julho de 2012

O meu "não-assunto"

Inspirado neste tema (quem tal diria?), relacionado com a badalada licenciatura instantânea do braço direito do nosso 1º, também tenho um não-assunto para contar. Ora, este não-assunto, adaptado ao mundo do vinho, passa a ser uma não-garrafeira. Passo a explicar, o Vidago Palace, recentemente reconstruído e ampliado, publicita, no seu portal, uma cave de vinhos, onde se pode:
.provar bebidas a copo ou à garrafa, com incidência nos vinhos do Porto e do Douro
.degustar presunto de Chaves ou tapas diversas
.jantar na mesa do chef, com capacidade para 12 pessoas
Visitado o espaço, onde exteriormente se pode ver uma placa intitulada "Garrafeira", constata-se que nada do descrito funciona. O espaço, aliás belíssimo e amplo, está praticamente despido e, quanto a vinhos, limita-se a meia dúzia de caixas da Qtª da Casa Amarela. Sugiro aos responsáveis do Vidago Palace que a placa seja alterada para "Não-Garrafeira", para ficar mais de acordo com a realidade.
De qualquer modo, considero imperdível visitar o interior do Palace e todo o espaço envolvente. Verdadeiramente empolgante!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Vinhos em família (XXXIV)

Mais alguns vinhos provados em família, uns da minha garrafeira e outros à mesa de restaurantes. São 4 brancos e 1 tinto:
.Qtª dos Currais Colheita Seleccionada 08 (Beira Interior) - côr algo evoluída, notas de melão, alguma exuberância, tostado e untuoso, acidez a equilibrar, bom final; um vinho original e uma boa surpresa, mas um contra (teor alcoólico 14,5% vol, o que considero excessivo). Nota 17. Bebido no Petit Algés.
.Soalheiro Allo Alvarinho/Loureiro 11 - aromático, notas tropicais dadas pela alvarinho, frescura e acidez vindas da loureiro, boa persistência final. Nota 16. Bebido no Mar do Inferno.
.Muros Antigos Alvarinho 11 - vinificado exclusivamente em inox, austero, frutado sem a componenete tropical, notas minerais, fresco, complexidade e finais médios. Um pouco abaixo da versão 2010, há que lhe dar tempo de garrafa. Nota 16,5. Um dos vinhos do Anselmo Mendes, o senhor Alvarinho de Melgaço e de Monção, segundo o José A. Salvador in "Os autores dos grandes vinhos portugueses", Edições Afrontamento 2003. Curiosamente, na última Revista do Expresso, foi o único produtor ou enólogo incluído nos 100 portugueses com maior influência em 2012 (escolha do João Paulo Martins).
.Morgado Stª Catherina Reserva 09 - estagiado 10 meses em barricas decarvalho francês, sem a madeira se impôr; citrinos, melão, notas florais, excelente acidez, estrutura e bom final; gastronómico. Medalha de ouro no International Wine Challenge, o que para um branco português é um grande feito. Ainda não atingiu o patamar do 2008, mas para lá caminha. Nota 17,5 (noutras situações 16,5+/17,5/17,5).
A propósito deste vinho, ocorre-me uma conversa com o Nuno Cancella de Abreu, quando ele era responsável pela enologia dos vinhos da Qtª da Romeira, ao referir a dificuldade na venda do Morgado. No entanto, bastou mudar a garrafa de renana para borgonhesa e alterar a grafia de Catarina para Catherina, para tudo se alterar. Coisas do marketing!
.Noval 05 - austero, próximo da terra, notas de couro e tabaco, boa acidez, potência de boca e bom final. Um bom trabalho do António Agrellos, que se estreou, em vinhos de consumo, com  a colheita  2004. E, se bem me lembro, a colheita de 2004 foi lançada num dos jantares organizados pelas CAV. Nota 18 (noutras situações 18,5/18,5/17).

sábado, 7 de julho de 2012

Os anos do Raul

No passado dia 1 de Julho, o nosso amigo Raul Matos, da linha duríssima da antiga tertúlia das CAV, fez mais 1 anito e comemorou-o com a família e um grupo de amigos enófilos, no qual me incluo. A festa teve lugar no restaurante As Colunas, já aqui citado em diversas ocasiões. O Raul, como enófilo que se preza, é sobejamente conhecido por partilhar connosco as preciosidades da sua garrafeira. Com ele já provámos (e bebemos) largas dezenas de vinhos, todos topo de gama. Algumas dessas provas, as mais recentes, estão comentadas neste blogue (ver crónicas de 23/4/2010, 28/11/2010, 21/5/2011, 18/10/2011 e 17/11/2011).
Neste seu aniversário, o Raul partilhou:
.Soalheiro Alvarinho 2011, em magnum - mais impressionante do que a versão 2010, tanto no nariz como na boca. Nota 17,5+. Acompanhou pasteis de massa tenra, requeijão, camarões e salada de peixe, atum e gambas.
.Vallado Touriga Nacional 2009, em magnum - nariz ainda muito fechado, notas florais discretas, acidez equilibrada, taninos presentes e bom final de boca; precisa de tempo de garrafa para se mostrar. Ó Raul, é pedofilia beber este vinho agora. Nota 17,5.
.Vallado Reserva 2007, em garrafa de 5 litros - fruta ainda presente, especiado, notas de tabaco, acidez a dar-lhe longevidade, bem estruturado, complexo e final longo; muito gastronómico, em forma mais 7/8 anos. Nota 18,5. Os tintos beberam-se com cabrito e borrego assados com arroz de miudos. Um bom casamento com o 2007.
.Blandy Bual 1959 (sem data de engarrafamento) - sem a complexidade a que estamos habituados, mas com um final muito longo. Nota 17,5.
.Blandy Bual 1971 (engarrafado em 2004) - muito mais complexo, frutos secos, iodo, brandy, vinagrinho, grande estrutura e final interminável. Um Madeira ao nosso estilo. Nota 18,5+.
Depois de ter bebido estes 2 Madeiras, já não havia hipótese de apreciar os Porto Vintage que estavam na mesa, Dow's 1960 e 1980 e Warre 1994.
Mais uma grande jornada. Parabéns ao Raul e obrigado pelo convite!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Só desgraças...

Na minha busca de locais interessantes em Lisboa, onde se pode petiscar, comer um menú ou bufete a preço de crise, dirigi-me ao Largo Vitorino Damásio (a Santos) com o objectivo de conhecer o SINS, aberto há pouco tempo e que veio a ocupar o espaço do Copo d' Três (?) e, posteriormente de um italiano. A porta estava só parcialmente aberta, mas o empregado, que estava no exterior, informou-me que o restaurante estava encerrado. Motivo? "Não nos pagam os salários", respondeu. Sem comentários...
Entrei no pátio ao lado, onde se situou o JA (o José Avillez para refeições ligeiras), que entretanto rumou a Cascais, deixando o espaço para outra gente, com outro nome que não retive. Azar,  no exterior podia ler-se "Aluga-se" ou "Vende-se", já nem sei.
Subi a D. Carlos I e dirigi-me ao BeBel Bistrô, situado mesmo em frente das escadarias da Assembleia da República. Na ardósia, onde constava a ementa, podia ler-se "não temos MB". Perante esta irritante falta, segui caminho. Passei à porta do Gemeli, onde não tencionava entrar, mas li mais ou menos isto: almoços, só por encomenda.
Próxima etapa, Praça das Flores, onde me dirigi ao Nova Mesa, onde têm funcionado inúmeros espaços de restauração e onde nasceu, na década de 80, que eu saiba, o primeiro restaurante/wine bar de Lisboa, o Copo de Três. Questionada a empregada sobre os pratos do dia, em opção, que compunham o menú da crise, tive como resposta um prato de carne e zero de peixe, que era aquilo que me apetecia.
Não fiquei e fui aterrar na esplanada do Pão de Canela, também na Praça das Flores. A fome e o desespero já eram muitos. O almoço, esse, não teve história e, quanto a bebidas, fiquei-me por uma imperial.
Era nesta praça que se situava o clássico restaurante Conventual, encerrado há cerca de 2 anos e que chegou a ser estrela Michelin, na década de 90.
Para carregar esta crónica ainda com cores mais negras, falta referir que, no caminho para o SINS, passei à porta do Manifesto, do nosso amigo Luis Baena (onde estive por diversas vezes e disso dei conta nas crónicas de 9/4/2010, 2/12/2010, 9/1/2011 e 16/4/2011; inesquecivel o almoço que preparou para as CAV, na sua fase de Catralvos, que lembrei quando dos 50 anos do António Saramago na crónica de28/5/2012), que encerrou em 15/6. Era uma morte anunciada, pois a decisão já fora tomada em 2011. Um novo projecto em Londres esteve na base dessa decisão.
Fecharam também as portas, o Bocca e o Vin Rouge, qualquer deles objecto de amores e desamores da minha parte (ver crónicas de 4/11/2010 e 23/2/2012). De qualquer modo, lamento estes infelizes desfechos.
Com tanta desgraça, há dias em que uma pessoa não deve sair à rua!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um dia com a Margarida Cabaço: São Rosas, senhores...

Grande jornada a que a Margarida Cabaço (MC) nos proporcionou neste sábado passado. O passeio a Estremoz foi organizado pelo João Quintela (Garrafeira Néctar das Avenidas), a que aderiram 18 militantes, a maioria dos quais, como não podia deixar de ser, pertenceu ao antigo núcleo duro das CAV. A visita começou no Monte da Azinheira, onde a MC reside com o marido, Joaquim Cabaço, responsável pelas vinhas. Aí visitou-se uma vinha velha e petiscaram-se uns queijos e enchidos, acompanhados pelo branco 2010. A jornada terminou em grande no restaurante São Rosas, com um almoço criado pela dona e que vai ficar na nossa memória. Conheço o restaurante, praticamente desde a sua inauguração em 1994, logo que o José Quitério publicou no Expresso uma crítica altamente elogiosa. A MC, conheci-a, pessoalmente, quando da 2ª edição do jantar "Vinho no Feminino", organizado pelas CAV em 29/4/2005, na sequência de uma ideia/proposta da nossa amiga Laura Regueiro. Nesse jantar foram galardoadas a Maria de Lourdes Modesto (a decana da gastronomia), a Margarida (na qualidade de responsável pelo São Rosas) e a Paula Costa (enófila, amiga e cliente das CAV).
O projecto Monte dos Cabaços nasceu com o Colheita Seleccionada 2001, tendo o 1º Reserva aparecido em 2004 e o 1º branco em 2005. O Luis Duarte foi, inicialmente, o responsável pela enologia e a Susana Esteban, entrada para a equipa em 2006, sucedeu-lhe.
Mas vamos aos comeres e beberes:
.Colheita Seleccionada 2010 branco - com base na casta Roupeiro de vinha velha, a que se juntaram Antão Vaz e Arinto, vinificado exclusivamente em inox - austero, fruta, frescura, alguma complexidade e estrutura, gastronómico. Nota 16,5+. Acompanhou um agradável cogumelo recheado com gambas.
.Margarida 2009 branco - vinho estreme de Encuzado, uma casta que não me parece ainda ambientada ao Alentejo; austero, a madeira ainda muito presente, menos fresco que o anterior. Pode ser que nas próximas colheitas...Nota 15,5. Com este branco avançou uma generosa garoupa com batata esmagada e espargos selvagens.
.Colheita Seleccionada 2006 - fresco, ainda com fruta, notas fumadas e couro, taninos domados, tipicidade evidente, gastronómico, no ponto para ser consumido. Nota 16,5 (tiro o meu chapéu a este produtor, porque só agora vai pôr o 2007 no mercado, em contra-mão com a maioria que já tem à venda a colheita de 2010). Foi lindamente com borrego no forno, batata assada e esparregado.
.Margarida 2008 - com base na casta Syrah, vinificado em lagar e estagiado parcialmente em barricas de carvalho francês; fresco, fruta evidente, fumado, notas especiadas, estruturado ainda com os taninos por domar, final longo, gastronómico. Uma bela surpresa. Nota 18. Acompanhou bem arroz de pombo.
.Reserva 2005 - alguma fruta, algo floral, especiado, notas de tabaco, boa acidez, taninos domesticados, estrutura e bom final de boca. Nota 17,5+. Não gostei da ligação ao pudim de água. Uma pena a MC não produzir Madeiras ou tawnies velhos! 
Estupendo almoço, em que apreciei particularmente os pratos de substância (o borrego e o pombo). Obrigado Margarida, uma cozinheira de mão cheia, uma produtora consistente e, até, pintora responsável por alguns dos rótulos!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

2 Anos de Assinatura (II)

Continuando...
3.Os comeres, os beberes e as maridagens
.Espumante Vértice Reserva Cuvée Bruto 2009, do nosso amigo Celso Pereira - aromas a pão fresco, bolha fina, elegante, equilibrado e deveras gastronómico. Nota 16,5. Serviu de bebida de boas vindas e fez um casamento seguro com os 2 primeiros momentos, flor de courgete recheada com caviar de beringela e bacalhau desfiado, em creme de tomate assado e, ainda, trio de cantarelos (com ovos mexidos, marinados em salada e em canja de pato).
.Soalheiro Alvarinho 2011 - aroma intenso, notas tropicais, acidez no ponto, arquitectura e bom final de boca, mais impressionante do que o 2010, tanto no nariz como na boca. Nota 17,5+. Fez uma óptima maridagem com o 3º momento, legumes da horta.
.Terra d' Alter Alfrocheiro 2010 - demasiado novo, algo verde, acidez acentuada, taninos nervosos, final doce a torná-lo algo enjoativo. Nota 16. Casou mal (divórcio à vista?) com o 4º momento, sardinha assada com xarém de bivalves e tomate confitado. Teria ficado melhor com o Soalheiro.
.Qtª dos Murças Reserva 2008 - frutado, notas florais, boca poderosa, acidez q.b., equilibrado e elegante, final longo, tem ainda muitos anos à frente. Nota 18,5. Casamento perfeito com o 5º momento, plumas de porco alentejano, com feijoada de caracóis e espuma de feijão branco.
.Malvedos Vintage 1999 - ainda muito jovem, com características de um bom LBV, mas sem arcaboiço para Vintage. Ligação tumultuosa com a sobremesa, trio de alperce (leite de creme, gelado e desidratado). Teria sido um enlace mais feliz com um Madeira ou um tawny velho.
Em conclusão, uma bela jornada digna da comemoração do 2º aniversário do Assinatura. Obrigado Henrique Mouro, parabens e felicidades para a continuação do projecto!

domingo, 1 de julho de 2012

2 Anos de Assinatura (I)

1.À guisa de introdução
No passado dia 28 de Junho, o chefe Henrique Mouro (HM) comemorou o 2º aniversário do Assinatura, para mim  o melhor restaurante de autor, localizado em Lisboa. Conheci a cozinha do HM no Club, em Vila Franca, há já alguns anos, onde passei a ir quando o saudoso Flora encerrou definitivamente. Mas o HM já estava de saída, e vim a reencontrá-lo há 2 anos neste seu Assinatura.
Destaco nele a criatividade, o rigor, a busca da perfeição, o trabalho que tem desenvolvido (os jantares temáticos, os jantares vínicos, etc) e a humildade, ao aceitar uma crítica com o maior dos sorrisos. Era fácil ter-se deitado à sombra da bananeira, mas o HM não o fez. Para quem tiver curiosidade, o HM está presente nas seguintes crónicas que podem ser lidas neste blogue:
.21/07/2010 - Jantar no Assinatura
.20/10/2010 - Henrique Mouro no seu melhor
.18/11/2010 - Caça no Assinatura
.13/01/2011 - O Assinatura continua em alta
.02/04/2011 - Duas confirmações : Assinatura e ...
.21/04/2011 - Cabrito estonado no Assinatura
.20/05/2011 - Mais um belo jantar no Assinatura
.27/11/2011 - Caça no Assinatura
.15/01/2011 - Jantar Quinta das Bageiras
.13/02/2012 - Jantar Wine & Soul
.14/04/2012 - Jantar Lavradores de Feitoria
2.Os sortudos
O HM teve a gentileza de convidar, segundo os seus critérios, os responsáveis por meia dúzia de blogues, a maioria dos quais tenho acompanhado intermitentemente. Para a memória do futuro, compareceram à chamada:
.Cinco Quartos de Laranja (Isabel Ziboia Rafael)
.Conversas à Mesa (Fátima Moura)
.Enófilo Militante (eu próprio)
.Gastrossexual (Pedro Cruz Gomes)
.Mesa do Chef (Raul Lufinha)
.Virgílio Gomes (Virgílio Gomes)
e, ainda, João Quintela (responsável da Garrafeira Néctar das Avenidas), parceiro do HM nos jantares vínicos.
3.Os comeres, os beberes e as maridagens
A desenvolver em próxima crónica.