domingo, 26 de agosto de 2018

Espaços de restauração : algumas decepções (II)

continuando...

3.Restaurante da Adega - 3*
Este espectacular espaço é pertença do produtor Ribafreixo Wines, localizado na Vidigueira. Com uma vista panorâmica para as vinhas, dispõe de uma sala ampla mas confortável, mesas bem aparelhadas, guardanapos de pano, pratos Vista Alegre e bons copos italianos.
A ementa é curta e os pratos especiais só por encomenda. Comemos uma açorda de espinafres com bacalhau, queijo e ovo, uma dose para 2 pessoas, muito bem apresentada numa telha, embora pouco saborosa e longe da receita tradicional.
Vinhos disponíveis, apenas os do produtor, como seria de esperar. Carta de vinhos muito didáctica, incluindo a descrição, notas de prova e harmonizações, para cada um deles.
Escolhemos o topo de gama da casa, o Gaudio Reserva 2013 - com base nas castas Alicante Bouschet (80 %) e Touriga Nacional (20%), estagiou 13 meses em barricas novas de carvalho francês e mais 16 meses em garrafa, o que é de aplaudir. Perfil e estrutura adequada à cozinha alentejana. Nota 17,5.
Só que a garrafa veio à mesa a uma temperatura acima (bastante) do recomendável. Chamada à atenção, a empregada explicou que era assim mesmo que se provava um vinho!!!???
Perante a nossa insistência, acabou por ir buscar uma manga e nós tivemos que esperar uma boa meia hora para que a temperatura baixasse uns graus!
Isto na casa do produtor, o que é indesculpável. Cartão amarelo à Ribafreixo!
Ó Paulo Laureano (o enólogo consultor ) dê lá formação ao pessoal do restaurante, que bem precisa!

4.Bem Haja (Rua Marcos Portugal,5 à Praça das Flores) - 3,5 *
Depois de ter estado em Nelas e abancado no Bem Haja (ver crónica "Rescaldo das férias (II) - Bem Haja e Mesa de Lemos", publicada em 26/7/2018), tive a curiosidade de poisar no Bem Haja original, da Isabel Raposo que o trouxe para Lisboa (primeiro em Campolide e agora na Praça das Flores, no mesmo espaço onde esteve o Castro Flores).
Sala acolhedora, mesas bem aparelhadas e guardanapos de pano. Pedi o mesmo prato que comi em Nelas, o entrecosto com arroz de carqueja. O entrecosto estava saborosíssimo, mas o arroz era requentado e da carqueja nem o rasto.
Quanto à componente vínica, a lista é razoável, mas omite os anos de colheita e a copo só da casa (o Grão Vasco 2016). A garrafa veio à mesa, a uma temperatura adequada e dado a provar num bom copo.
Quanto ao serviço, foi tudo excessivamente demorado, pois a empregada (uma boa profissional, diga-se) estava a atender clientes, em simultâneo, na sala e na esplanada (cheia), enquanto que na cozinha, o seu filho, sem qualquer ajuda, fazia autênticos milagres.
A dona acabou por aparecer, já nós estavamos a terminar o almoço. Perante as nossas queixas, ofereceu a sobremesa, Vá lá...
Mas este Bem Haja não ganha ao de Nelas. Outra desilusão.
continua...

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Curtas (CI) : a Sandra na RTP3 e a Comida Independente

1.A Sandra na RTP3
A RTP3 no seu programa "Grande Entrevista" deu a voz à Sandra Tavares da Silva, a mediática enóloga de reconhecidos méritos (Chocapalha, Pintas, etc).
A entrevista veio para o ar na passada 4ª feira, cerca das 23h, e quem perdeu o programa ainda pode vê-lo até à próxima 4ª feira (no canal 6 para quem tenha a NOS).
Ficam avisados, sem desculpas para esquecimentos.

2.Comida Independente (Rua Cais do Tojo, 28 em Santos)
É uma loja gourmet ou uma mercearia fina, como lhe queiram chamar, cujo lema é "Grandes Produtos - Pequenos Produtores", que arrancou há cerca de 6 meses. Ali se pode encontrar enchidos, queijos, conservas, vinho, cervejas artesanais e azeites, que não se encontram facilmente, mas também legumes e pão fresco. Uma pena ficar tão escondida.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Espaços de restauração : algumas decepções (I)

Ultimamente tive algumas decepções em espaços de restauração (alguns bem badalados na comunicação social), nomeadamente quanto ao serviço de vinhos.

1.Skora - nordic cuisine (Av. Duque d' Ávila, 45 D) - 1*
Aqui correu tudo muito mal, a saber:
.não havia ementa, tendo-me remetido para uma ardósia que está na rua à porta do restaurante
.na ementa apenas constava uns filetes de peixe, um prato de pato e uma salsicha dinamarquesa (o único prato nórdico, por sinal pouco apelativo)
.não havia lista de vinhos, apenas tinham o da casa, branco e tinto (optei por uma cerveja belga)
.quando paguei, não me entregaram a factura, dizendo que havia um problema com a impressora (prometeram enviar via email, mas não o fizeram)
.quando fui ao WC fiquei às escuras (a luz só veio quando abri a porta)
.ao lavar as mãos constatei que o contentor das toalhas de papel estava avariado, pelo que tive de me deslocar ao WC das senhoras.
Só desgraças!
Há poucos dias, decorrido cerca de 1 mês, passei por lá e estava encerrado. Fiquei com a sensação que definitivamente. Só podia...

2.Estufa Real (Jardim Botânico da Ajuda) - 2*
Frequentei uma série de vezes este espaço, no passado, sempre com boas experiências, fosse na área gastronómica, fosse na componente vínica (lembro-me, até, que a carta de vinhos fora desenhada pelo mestre de enologia Virgílio Loureiro).
Passados uns anos revisitei a Estufa Real, no âmbito do Lisboa Restaurant Week, tendo ficado desiludido, como se pode constatar na crónica "Lisboa Restaurant Week (III)", publicada em 4/10/2011.
Em má hora, revisitei este icónico espaço, tendo a desilusão sido ainda foi maior. O restaurante só abre para o brunch dos Domingos ou para casamentos e baptizados. Uma pena...
Agora, para almoços de 2ª a 6ª feira, só funciona a esplanada, com uma ementa simples, reduzida e desinteressante. Tencionava beber vinho a copo, mas quando me trouxeram os ditos copos, inqualificáveis, mandei-os para trás. Ainda perguntei se tinham alguma cerveja artesanal, mas perante a resposta negativa optei por beber água.
Estufa Real, nunca mais! Quem a viu e quem a vê...
continua...

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Grupo FJF (4ª sessão) : tudo na maior!

O Grupo FJF, reforçado com outro J (J.Rosa), reuniu novamente no Magano. Com excepção do fortificado, os 3 vinhos de mesa foram provados às cegas, com bons resultados. E eles foram:
.Muros de Magma Verdelho 2015 (levado por mim) - DO Biscoitos, com 12,5 % vol. e enologia de Anselmo Mendes, estagiou 6 meses em barricas usadas de carvalho francês; nariz exuberante, fresco, cítrico e salino, muito boa acidez, notas amanteigadas, algum volume e final de boca longo. Pura elegância. Nota 18.
Acompanhou as entradas habituais.
.Blanco Nieva Pie Franco Verdejo 2015 (levado pelo João) - DO Rueda, com 13 % vol., a partir de vinhas velhas com mais de 100 anos e sem estágio em barrica; austero, mineral e cítrico, acidez equilibrada e notas amanteigadas, bom volume e final de boca médio. Gastronómico. Nota 17,5+ (noutras situações 18/18).
Maridou com filetes de peixe com arroz.
.Conde de Vilar Seco Touriga Nacional Garrafeira 2010 (levado pelo Frederico) - garrafa nº 811/1246, produzida por Qtª da Fata, a partir da vinha que obteve o 1º prémio "A melhor vinha do Dão 2016", com 13 % vol.; com pisa a pé, estagiou em barricas de carvalho francês; ainda com fruta e notas florais, acidez no ponto, frescura e juventude, algum especiado, volume e final de boca. A beber nos próximos 10/12 anos. Nota 18,5.
Harmonizou com bochecha de vitela e grelos.
.Blandy Bual 1977 (levada pelo J.Rosa) - engarrafada em 2007, com o nº 404/1666; frutos secos, notas de iodo, brandy e caril, vinagrinho bem presente, taninos civilizados, volume considerável e final de boca interminável. Não me canso de beber esta Madeira (esta foi a 19ª garrafa que me passou pelo estreito!). Nota 19.
Acompanhou a tradicional tarte de amêndoa, a ligação perfeita.
Resta acrescentar que a gastronomia e o serviço de vinhos estiveram à altura dos acontecimentos. Nem outra coisa seria de esperar.

sábado, 18 de agosto de 2018

Almoço com Vinhos Fortificados (29ª sessão) : uma grande jornada em Porto Covo

Este grupo de enófilos militantes, também conhecido pelo Grupo dos Madeiras, rumou a Porto Covo, "chez" Natalina (nos tachos) e Modesto (nos vinhos). Diga-se desde já que o casal de anfitriões se esmerou e deu o seu melhor, tanto na gastronomia como nos vinhos (1 espumante, 2 brancos, 1 tinto e 3 Madeiras). Nota alta para o casal.
A bebida de boas vindas foi o espumante Soalheiro, a cumprir bem a sua missão. Mas também se podiam provar os brancos, a acompanhar uma série de entradas (chamuças, cogumelos recheados e uma imperdível casquinha de sapateira).
.Anselmo Mendes Curtimenta Alvarinho 2009, em versão magnum - aromas e sabores terciários, acidez bem presente, notas glicerinadas, complexo, volume e final de boca assinaláveis. Gastronómico. Nota 18.
Já com o grupo instalado à mesa, desfilaram:
.Soalheiro Alvarinho 1ª Vinhas 2015, em versão 3 litros - mais fresco e mineral, acidez no ponto, notas florais e amanteigadas, algum volume e final de boca. Nota 17,5+ (noutras situações 17,5/17,5+).
Harmonizou com a canja de garoupa, ameijoas e espinafres.
.Borges Sercial 1979 (sem data de engarrafamento visível) - presença de frutos secos e vinagrinho, notas de iodo, brandy e caril, grande complexidade, boa estrutura e final de boca interminável. Nota 19 (noutras situações 18,5/18,5/19/19/19/18+).
Serviu para preparar o palato para o prato seguinte. Um luxo!
.Vallado Reserva 2011, em versão 3 litros - com base em vinhas velhas com mais de 80 anos, estagiou 18 meses em meias pipas de carvalho francês; nariz intenso, ainda com muita fruta, bela acidez, especiado e complexo, taninos de veludo, grande volume e final de boca persistente. A beber dentro de 7/8 anos. Nota 18,5+ (noutra situação também 18,5+).
Maridou com uma feijoada de lebre.
.Artur Barros e Sousa Terrantez 1980 (engarrafado em 2011) - nariz discreto, presença de frutos secos, notas de caril e iodo, algum vinagrinho, taninos evidentes, algum volume e final de boca assinalável. Nota 18,5 (noutra situação 17,5+).
.Cossart Gordon Bual 1969 (engarrafado em 2004; nº 506/2000) - aroma exuberante, frutos secos, vinagrinho, notas de iodo e brandy, taninos vigorosos, boa estrutura e final de boca interminável. Nota 19 (noutras situações 18,5+/17,5+/18).
Estes fortificados acompanharam doces diversos, tábua de queijos e salada de frutos tropicais.
Foi mais uma grande sessão de convívio, comeres e beberes. Obrigado Natalina! Obrigado Modesto!

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Jantar Portal do Fidalgo

Em pleno verão e em cima das férias da maioria dos consumidores, a Garrafeira Néctar das Avenidas "atreveu-se" a realizar mais um jantar vínico, mas com o cuidado de se adaptar às circunstâncias. O produtor escolhido foi o Portal do Fidalgo que apresentou 10 Alvarinhos (1 espumante e 9 tranquilos), numa sessão muito didáctica ao colocar lado a lado vinhos com 10 anos de diferença. Com uma única excepção, os mais antigos sobrepuseram-se aos mais jovens, como seria de esperar, pois a casta Alvarinho precisa de uns anos de evolução. No seu melhor é a grande casta portuguesa que compete bem com as melhores do mundo.
O evento contou com a presença do enólogo da casa (Abel Codesso), demonstrando uma grande facilidade de comunicação, e a equipa comercial (João Marques, já meu conhecido dos bons velhos tempos das CAV, e Nuno Araújo) e decorreu na esplanada interior do Hotel Real Palácio, registando-se com agrado a boa logística e o ritmo adequado. Quanto à comida, foi a possível...
A bebida de boas vindas foi o espumante Côto de Mamoelas Bruto 2015 que cumpriu da melhor maneira a sua função. Seguiram-se (apenas com as respectivas classificações):
.Portal do Fidalgo 2007 (18) e 2017 (15,5)
com rolinhos de salmão fumado
.Portal do Fidalgo 2006 (17,5) e 2016 (16,5)
com bolinhas de vitela e, ainda, de alheira
.Contradição 2014 (17,5) e 2017 (17)
com brás de espargos e tomate seco
.Portal do Fidalgo Reserva 25 Anos 2015 (18; noutra situação também 18: ver crónica "Grupo dos 6 (11ª sessão) : um conjunto equilibrado de vinhos", publicada no dia 7)
com risotto de lima e coentros com tempura de polvo
.Portal do Fidalgo 1999 (14,5 foi o elo mais fraco, ou seja, a excepção a confirmar a regra) e 2011 (17,5+)
com torta de laranja com queijo mascarpone e citrinos
Conclusão: beber agora os vinhos de casta Alvarinho acabados de sair para o mercado é pura pedofilia; há que esperar por eles meia dúzia de anos (há colheitas antigas ainda à venda)

sábado, 11 de agosto de 2018

Cerveja artesanal versus vinho a copo

1.Uma introdução
Desde que "descobri" as cervejas artesanais, a minha escolha está feita. A velha imperial está fora de questão, já não a consigo tragar. Quando vou a um restaurante e se o mesmo tiver alguma cerveja artesanal, ou mesmo a 1927, a semi-artesanal da Super Bock (superior à Bohemia, a semi-artesanal da Sagres), não hesito. É bem melhor do que beber um vinho a copo banal, quase sempre o da casa, e mais caro.
E não é por acaso que a cerveja artesanal, além de estar na moda, despertou o interesse de alguns produtores de vinho (a Herdade do Esporão que comprou a Sovina, a Qtª La Rosa, a Qtª do Gradil e o Dirk Niepoort que já produzem as suas próprias marcas, além de parcerias avulsas com o Anselmo Mendes e Qtª do Portal) e mereceu já uma atenção esclarecida  por parte de alguma comunicação social.
No espaço de pouco mais de 1 mês, a Fugas de 30 de Junho dedicou-lhe um extenso artigo de 8 páginas, assinado por Luís Octávio Costa (LOC), jornalista do Público, e a Vinho Grandes Escolhas, saída há dias, pela pena do jornalista José Miguel Dentinho (JMD), debruçou-se sobre o mesmo tema, também ao longo de 8 páginas. Curiosamente, também na Fugas (27 de Julho), o Miguel Esteves Cardoso, muito conservador em termos vínicos e não só, fez o seu acto de contrição e aderiu à excelência da cerveja artesanal.
Na blogosfera, que eu me tivesse apercebido, apenas no "Comer Beber Lazer" e no "Joli" foram comentadas cervejas artesanais.

2.A Fugas
No artigo acima mencionado, publicado com o título "Quando a cerveja é tratada como vinho" e assinado por LOC, o autor refere "(...) Uma nova onda de produtores artesanais está a combinar cerveja e vinificação para criar cervejas únicas perfeitas para os amantes do vinho (...)". Além do artigo principal, dedica outro à cerveja "Dois Corvos" e outro ainda a "Esporão e Sovina", onde a propósito sublinha a atitude do João Roquette, em querer "fazer crescer em Portugal uma cultura da cerveja artesanal".

3.Grandes Escolhas
No nº de Agosto desta revista o jornalista JMD assina 3 artigos, sendo o 1º "Criatividade e Paixão", uma introdução ao tema onde refere "São já quase uma centena as marcas de cervejas criadas por pequenos produtores, dando corpo à categoria a que se convencionou chamar cerveja artesanal. Um nome apropriado, já que em cada copo destas cervejas está um pouco do empenho, da paixão e da capacidade de quem a produz". O 2º "Esporão aposta no sector cervejeiro" (a compra da Sovina pela Herdade do Esporão) e o 3º "Do vinho à cerveja artesanal" (a propósito da produção da Qtª La Rosa, já com 2 cervejas e uma 3ª na forja).

4.Uma conclusão (a minha)
Que eu saiba (e corrijam-me se estiver enganado), o único ponto de venda de vinhos de prestígio que aderiu às cervejas artesanais é o novo espaço da loja gourmet do Corte Inglês. Uma pena que não haja mais lojas ou garrafeiras de referência a cavalgar esta nova e desafiante onda.
Atrevo-me a afirmar que este fenómeno da cerveja artesanal veio atrasado 10 anos ou mais, pois se fosse no tempo da saudosa e emblemática Coisas do Arco do Vinho, as suas portas estariam abertas a esta nova aposta.